Conto: Caçador - Capítulo 1
A cidade passa rapidamente pela janela enquanto olho vagamente para o horizonte. Ora veloz, por vezes vagarosamente, os bairros mais distantes do Centro vão se aproximando e centenas de pessoas entram e saem dos vagões. O ritmo acelerado da vida urbana já me contagiou depois de tantos anos vivendo na metrópole. Tantos anos é apenas uma referência, pois séculos já se passaram e eu continuo a ver a as pessoas indo e vindo em suas findáveis existências. Posso me dar ou luxo de dizer que elegi o Brasil como morada e não me arrependo disso. Já vivi em muitos lugares e já vi muitas paisagens que já não existem mais nos dias atuais. Vi reis e imperadores nascerem e caírem como páginas viradas em um livro de História. Guerras, pestes e desastres; invenções inovadoras, descobertas revolucionárias e artistas fantásticos; tudo isso faz parte do livro da minha história: vivenciei o que a maioria descobre na escola ou na Internet. Sou imortal.
É claro que estou glorificando demais. Não presenciei nada disso pessoalmente. Senti as mudanças que ocorreram de onde estava. Passei boa parte da minha existência fugindo, escondido, tentando entender os motivos que levaram a humanidade a excluir seus antigos ídolos e se tornarem tão fanáticos por uma única figura. Mas tudo bem. Eles fazem a escolha deles e eu a minha. Houve uma época em que fui venerado por muitos na região em que nasci. Era um ícone e um predador feroz. Hoje, vivo à margem da sociedade. Busco meu alimento entre os mortais, absorvo suas vidas para manter a minha. Minha imortalidade não é gratuita e precisa ser renovada com freqüência. Sou amaldiçoado.
Observo atentamente o movimento das pessoas na cidade. Escolho muito bem minha futura refeição. Se outrora fui antropófago, carnívoro fervoroso, refinei meu paladar e me tornei um hemófago convícto. Meu sistema absorve muito melhor este néctar e minha qualidade de vida melhorou muito depois de adquirir este hábito. Paguei muito caro por matar para alimentar-me. Reza minha maldição que todo aquele que der sua vida para que minha existência se mantenha deverá ser morto duas vezes - se eu não o extinguir, acabará se tornando outro como eu, algo que não posso permitir. Nos dias atuais, absorvo apenas o necessário e, muitas vezes, o ‘doador’ nem sabe que saciou minha fome. Durante minha estada no plano dos deuses, convivi com diversos imortais e aprendi muito com eles. Sou um semi-deus.
Já me acostumei com a rotina da vida dos trabalhadores da grande cidade. Devo dizer que não há melhor lugar para escolher o prato do dia. Vários tipos de pessoas, boas e ruins, saudáveis e doentes, homens e mulheres; todos, todavia, têm seu sabor e sua valia para minha dieta. Apesar de ser um macho da espécie, não faço distinção de gêneros quando o assunto é meu paladar. É claro que sempre dou preferência para as fêmeas humanas, pois, são agradáveis aos olhos e costumam ser mais saudáveis que os opostos. Entretanto, evito qualquer tipo de relação diferente da alimentar com qualquer humano. Aprendi que não posso me apegar a nada nem a ninguém. Faz parte da minha cultura e é uma das coisas que me mantém vivo até os dias de hoje.
Dentro do vagão, já tarde da noite, um dos últimos trens está de partida do terminal. Olho seletivamente ao redor em busca da próxima refeição. Sinto mil cheiros, vejo cores e imagens que os olhos mortais não enxergam. Ainda não resolvi qual será escolhido. A campainha toca dentro do vagão, sinal de que as portas se fecharão. Correndo, uma moça consegue se esquivar da porta em fechamento e respira fundo. É uma menina bonita, de cabelos escuros e olhos castanhos, amendoados. Aparenta ser uma estudante jovem e cheia de vida. Acho que encontrei o que procurava. Por mais engraçado que pareça, ela me viu e sorriu. Normalmente, passo despercebido pelas pessoas. Evito ser visto. Devo ter baixado minha guarda e dei a ela esta oportunidade. A jovem caminha para o mesmo lado que estou e toma assento a poucos metros de mim. A composição está quase vazia. Os ecos das conversas soam pelo ar, os sons dos trilhos começam a crescer e a monotonia retorna.
Tentando ficar mais confortável em seu assento, a menina recosta sua cabeça e estica seus músculos das costas e do pescoço. Seus olhos se fecham por um momento e seus cabelos balançam sobre seu rosto. Com as mãos, ela retira os fios caídos sobre a face e os amarra junto do resto, na parte de trás da cabeça. Acomodada, coloca seus fones de ouvido e deixa a música entrar em seus pensamentos, distanciando-se do ruidoso ambiente. Lentamente, suas pápebras descem e sua íris escura dá lugar ao vazio, relaxada. Sua respiração se torna mais lenta e pesada, seus músculos faciais já não estão mais tensos. Sua imaginação toma o lugar da mente atenta, o mundo dos sonhos abre a ela suas portas. De onde estou, observo cada movimento dela. Isto me encanta. Sinto-me um predador à espreita de sua próxima caça. O mais estranho é que parece que tem algo mais sobre esta jovem que me intriga, alguma sensação estranha e diferente que me atrai. Decido explorar o que se passa em sua mente - algo que não faço comumente com futuros jantares.
Minha descendência me concede determinados dons que humanos não possuem. Sou discípulo de Hipnos, transito pelo sono dos mortais e o reino de Nix é minha morada. Com um pouco de concentração, vou enxergando o que se passa dentro da mente dos que estão ao meu redor. Foco minha atenção na garota e logo inicio o contato. Minha mente começa a se expandir através da mente dela. As primeiras imagens que recebo dela são do cotidiano. Pela expressão em seu rosto, sei que ela recebeu meu contato e está totalmente relaxada, sinal de que não terei dificuldades em saber o que quero. Quanto mais profundamente me conecto a ela, mais seu relaxamento aumenta. Seu corpo agora está solto e ela está dormindo profundamente. Ninguém ao redor nota o que se passa e eu faço questão de manter a situação sob controle. Mais imagens da mente da jovem chegam ao meus olhos e vejo sua infância, um cachorro, a morte, a ausência de seus pais e as dificuldades de ser criada por uma avó, mais perdas e mais sofrimento. Agora sei que ela é solitária, como eu. Simpatizo com ela. Esta simpatia serve para aumentar ainda mais minha fome. A jovem se chama Cláudia e ela está indo para sua casa depois de ter trabalhado e ido à faculdade. Ela quer ser psicóloga e está no último ano. Seu trabalho paga pouco e ela mora longe. Apesar disso, é feliz. Engraçado como isso fica claro ao ver a forma como ela reage a cada memória. Para ela, não passa de um sonho. Para mim, sua mente é uma revista que folheio enquanto transito e me preparo para a próxima refeição.
Percebo que seu sono está ficando mais leve, sua parada está próxima. Não perco mais tempo navegando por suas lembraças e insiro o que preciso. Indico a ela o local que deve me encontrar, a hora e como se portar. Estas mensagens ficam instaladas no subconsciente dela e são ativadas no momento em que ela adormecer novamente. Assim, não corro riscos de ser percebido, para ela, não passarei de um pesadelo em uma noite qualquer. Trago ela de volta lentamente e me divirto ao ver o movimento de seus olhos sob as pápebras. Elas começam a subir e ela desperta suavemente de um sono tranqüilo. O trem pára e ela se recompoe para levantar-se. Faço os mesmos movimentos e ambos nos dirigimos para a porta. A próxima parada será a descida. Nos olhamos e ela sorri novamente. Vejo inocência, apesar de tanto sofrimento que já viveu, em seus olhos, agora atentos. Não consigo evitar a empatia entre nós. Sinto que há algo de errado no ar.
Descemos e caminhamos em direção à escadaria. A passos lentos sigo os mais velozes dela. Já é tarde e ela precisa ir logo para casa. Subitamente, ela cessa seus movimentos. Sons de gritos ecoam pela estação. Tiros. Cláudia se assusta. Subo correndo os degraus remanescentes e fico paralelo a ela. Um assalto à bilheteria da estação está em curso. Os seguranças correm e uma bala atinge meu peito. Sinto o calor do projétil em meu corpo imortal. Apesar de não ameaçar minha vida, a dor é enorme e faz minhas pernas dobrarem. A jovem olha para mim e reage tentando me amparar. Com seu ato, ela também é alvejada por outra bala. Ao contrário de mim, Cláudia não é eterna e o ferimento é mortal para ela. Seu corpo cai ao meu lado. Vejo seus olhos piscando, lacrimenjantes. Sua respiração fica mais difícil e vejo que ela delira. O cheiro de seu sangue atiça meus instintos e faço um enorme esforço para não devorá-la ali mesmo. A movimentação dentro da estação aumenta quando a polícia chega e os assaltantes passam correndo por nós, indo em direção aos trilhos. Os seguranças também passam por nós, sem dar importância aos feridos. Sua meta é pegar de volta o que foi roubado. Respiro fundo e fecho meus olhos. Sinto o projétil sair do meu corpo pelo mesmo orifício que fez ao entrar nele. Pego o pedaço de metal em minhas mãos e olho para o sofrimento da menina. Seus olhos estão quase fechados, ela convulsiona e sente frio. Não resisto mais. Aproximo minha boca do local do ferimento e sacio minha fome. Ela sente dor e murmura algo. Não entendo o que ela fala. Sua mão segura meu braço com firmeza e posiciono meu ouvido perto de seus lábios. Seus olhos se abrem e ela sussura: - Me ajude. Seu corpo desfalece e sua mão larga meu braço. Sua vida está se esvaindo enquanto me alimento dela. Olho para seu ferimento e vejo que várias artérias estão comprometidas. Há duas formas para ajudá-la. Posso torná-la uma da minha espécie, subordinada a mim pela eternidade ou tentar a cura com meu próprio sangue. Das duas formas uma maldição cairá sobre nós dois. Não sei o motivo, mas não posso deixá-la morrer. Com minhas presas à vista, faço um rasgo na palma de minha mão, única forma de me ferir, e deixo que meu sangue escorra por toda a mão. Coloco a palma para baixo e toco o ferimento de Cláudia. Em poucos segundos, uma dor aguda toma conta de nós dois e nos ligamos fortemente um ao outro naquele momento. Suas artérias se regeneram, o ferimento se cicatriza e apenas uma marca fica no lugar em que a bala a atingiu. Ao mesmo tempo, meu peito queima e a mesma cicatriz que ela tem aparece em meu corpo. Ela está curada e eu faço parte de sua vida agora. Deixo que seu corpo deite no piso, imóvel. Sua feição é de paz e a dor foi toda tranferida para mim. Cambaleando, levanto-me e caminho de volta para a plataforma do trem. Deixo Cláudia inconsciente, mas sei que a polícia a encontrou. Ela está salva.
Na plataforma, observo o caminho que os bandidos seguiram, com os seguranças em seu rastro. Contudo, sinto o odor dos criminosos também no sentido oposto ao que os outros seguiram. Algum ficou para trás. Enquanto caminho, meus ferimentos se curam e já não tenho mais dores. Respiro fundo e concentro meus sentidos. Minhas pupilas crescem e vejo as sombras com a mesma naturalidade que vejo a luz. Com agilidade, sigo para o túnel negro. Estou no meu habitat agora. É a vez do caçador tomar o lugar do complascente. Escuridão e silêncio pairam na atmosfera. O cheiro de umidade e freios queimados que o trem deixa não me confundem e sei onde está o fugitivo. Ouço seus tremores e logo o localizo em uma vala. Ele ainda não percebeu que estou perto, mas sua respiração não nega seu medo. Em termos gastronômicos, o medo é a pimenta que realça o sabor da comida. Raiva. Minha ira sobre o rapaz é quase cega. Ele atentou contra minha existência e contra da de uma inocente moça. Engraçado que a menina é importante para mim. Minha fúria aumenta e me aproximo lentamente do ladrão. Quando ele percebe minha presença, dispara diversas vezes ao léu, sem me atingir uma bala sequer. Desta vez, estava preparado e não me deixei acertar. Ele grita e corre. Corro junto e salto sobre suas costas. Incontrolável, mordo seu ombro com violência e sinto seus músculos se partirem, seu braço direto está inutilizado. Deixo que ele se levante e se arraste tentando fugir novamente. Sinto o cheiro do medo ainda maior junto ao sangue que tirei.
O gosto de sua carne é amargo, é um viciado. Canso de caminhar e pelas sombras o seguro. Imóvel, o rapaz chora e as lágimas escorrem por sua face. Ele não consegue me ver, mas sente minha mão em seu pescoço, apertando e quase impedindo que ele respire. Sem a mesma sutileza que penetrei na mente de Cláudia, entro na do bandido. Ele grita de dor e quase desmaia. Ergo seu corpo quase morto pelo pescoço e vejo que ele tem filhos, que abandonou por causa do vício. Vejo que ele rouba e mata para ter o que precisa para saciar sua necessidade química. Vejo os rostos dos que foram feridos por ele e assisto à cena que acabei de vivenciar, em que fomos alvejados por ele. Ele pensou que fôssemos seguranças e atirou sem pensar. Não me importa mais, não me alimentarei dele. Minha fome já estava saciada com o sangue que ele tirou de Cláudia. Com um rápido movimento, abocanho seu pescoço e o dilacero. Deixo que seu corpo caia em seus últimos suspiros de vida. Cuspo o pedaço que arranquei daquele ser inútil e caminho de volta para a luz. Sei que estou sujo e cansado. Ouço os policiais e os seguranças entrando no túnel. Pelas sombras, fico escondido e eles não percebem que passo por eles. Saio da plataforma e sigo em direção ao banheiro da estação.
Dentro do banheiro, olho para minha imagem no espelho: uma criatura movida a fúria, suja de sangue e com novas cicatrizes pelo corpo. Sou imortal e, apesar de ter vivido muito, ainda não aprendi a controlar este animal que sou. Abro a torneira e deixo a água escorrer por minhas mãos. O vermelho desce pelo ralo e minhas mãos ficam quase limpas. Retiro do bolso um lenço e molho o pano. Depois de limpar meu rosto, me livro das roupas imundas e fico nu. Pelas sombras me misturo e saio do banheiro. Escondido, observo os paramédicos colocarem Cláudia na maca. Ela ainda não despertou. E nem irá tão cedo. O choque da conexão entre nós foi muito forte e ela deve estar em coma, provavelmente. Logo ela sairá dele. Sairá uma pessoa diferente. Mais saudável do que jamais foi e mais inteligente, com o raciocínio treinado de um ser com mais de dois milênios de vida. Este é meu presente a ela. Esta é minha maldição a ela.
Depois que a ambulância sai, sigo no encalço dela apenas para ter certeza de que está tudo de acordo. No hospital, Cláudia é recebida na emergência e examinada. Suas pálpebras são abertas pelo atendente e revelam pupilas normais, porém, vazias. Sua mente está comigo agora. Seu corpo precisa se recuperar primeiro. O coma é diagnosticado e o corpo é levado à UTI para observação. Olho para o corpo da jovem e não consigo evitar o desejo de estar perto dela. Lembro-me de seu olhar quando fui ferido. Um olhar solícito e preocupado. Ela se importou comigo. Também escuto sua voz pedindo ajuda. Nossa conexão foi imediata. Fecho meus olhos e me conecto com sua mente. Ela está longe daqui, segura. Para ela, o sonho que tinha dentro do trem continua e está calma. Faço questão de velar seu sono para que seu corpo se recupere logo. Passo minhas mãos sujas por seus cabelos, sua testa e suas bochechas. Sua pele está morna. Seus lábios, também. Pressiono minha mão sobre seu peito, sinto seu seio sob minha palma. Tento não pensar nisso. Fecho meus olhos e termino de curar seu ferimento. Seu corpo começa a tremer e sinto sua mente voltar ao ponto de origem. Ela respira fundo e seus olhos se abrem, assustados. Não tenho tempo de desaparecer e ela me vê. Cláudia estende seu braço em minha direção e me aproximo dela.
Com sua mão estendida, Cláudia tenta tocar-me. Aproximo-me o bastante para que seus dedos toquem minha face. Seus olhos conectam-se aos meus e algo acontece comigo. Pisco e interrompo o momento. Dou um passo para trás e vejo uma lágrima descer de seu rosto. Noto que uma também desce pelo meu, algo que não me lembro quando aconteceu pela última vez. Ela coloca-se sentada na cama e solta dos fios que a ligam aos aparelhos. Fico imóvel, pasmo. A jovem sai do leito e caminha até mim. Com suas mãos, acaricia meu rosto e meus cabelos. Sinto suas palmas acariciarem minha barba e tocarem meus lábios. Automaticamente, minhas mãos seguram as dela pelos pulsos. Cláudia está me analisando, tentando entender o que se passou. Quando sinto que não faz mais força com seus braços, solto seus pulsos. Ela senta-se na beira da cama e me olha.
- Por que estou aqui? - pergunta.
- Não sabe?
- Eu morri. Sei que morri. Lembro de você, de estar nos seus braços, como no colo de um anjo e estava feliz. Não morri?
- Sim, morreu. Mas te trouxe de volta.
- Por quê? - diz Cláudia fitando meus olhos.
Sem conseguir desviar, fico mudo. Observo que ela desvia o olhar e se aproxima da janela. As outras camas estão vazias. Estamos sós no ambiente.
- Não entendi o que houve. Achei que você fosse um anjo. - disse ela, apoiando-se no batente da janela.
- Não sou um anjo. Estou longe disso. Não me encaixo nesta mitologia que você conhece.
- Mitologia? - pergunta ela, virando-se para mim, esboçando um sorriso - Não acredito em nada. Não sei o que pensar agora.
- Então não pense. Apenas aceite que te dei uma nova oportunidade. Fiz isso porque vi algo diferente em você. - disse eu a ela, aproximando-me.
A jovem volta para a cama e se cobre, encolhendo-se. Perto da janela, olho para ela, admiro sua beleza pálida. Quase me esqueço que consumi seu sangue há poucas horas. Observo seu rosto, seus olhos, agora fechados. Chego perto do leito e acaricio seu cabelo. Ela responde pegando minha mão e apertando-a com força. Ajoelho-me diante dela e nossos rostos estão emparelhados. Deixo que ela me veja de perto. Veja como sou pálido, como sou frio. Com meus cabelos escuros e curtos, minha barba rala e meus olhos negros. Mais negros do que qualquer humano possa ter visto. Ela abre os olhos e vê meu semblante cansado. Preciso partir. Olho em seus olhos e conecto nossas mentes novamente. Ela sente um calafrio quando faço isso e aperta minhas mãos.
Uma vez conectados, peço que ela adormeça. Ela luta contra isso. Resiste. Seus olhos lutam para permanecerem abertos. Porém, quando passo meus dedos por seus cabelos, suas forças se evaporam e ela desfalece, caindo em um sono profundo. Desisto de tentar mudar o que aconteceu. Poderia muito bem inserir o que quisesse para que ela acreditasse que fosse a verdade. Todavia, decido deixar como estão as coisas e me desconecto de sua mente. Outro calafrio corre pelo corpo dela e ela relaxa. Deixo-a descansar e desapareço nas sombras.
Continua…
André Luis Cavallini Ferreira, março de 2008 (editado em junho, 200
Conto: O Filho do Mar
Quase dez anos se passaram desde a última vez que Patrício esteve na cidade em que nasceu e viveu durante quase trinta anos. O tempo parece que parou. Pela estrada, o ônibus o leva para o lugar em que suas melhores e piores memórias estão guardadas. Infelizmente, as mais tristes prevalescem. O vento sopra em seus, já poucos, cabelos e o cheiro do mar traz de volta tudo o que estava lacrado e fadado ao esquecimento. O tempo parece que parou mesmo. A paisagem serrana, a pressão nos ouvidos, a umidade e o calor são os mesmos. Aos poucos, o corpo se acostuma e a náusea já não é mais causada pela viagem, mas pelo motivo dela. Há algumas horas, Patrício recebeu um telegrama cujo conteúdo era muito desagradável. Um amigo de infância, Samuel, com quem dividiu seu primeiro pesqueiro, Netuno, e foi seu padrinho de casamento, havia morrido - o mar o havia levado. Com isso, os ecos das vozes daqueles também levados pelo grande azul chamam seu nome novamente. Depois de fazer sua mala e ligar para o mercado avisando que se ausentaria, um grande esforço foi feito para que suas pernas o levassem à rodoviária.
Ao chegar ao vilarejo, a decadência parecia tomar conta do ambiente. Nas ruas de terra e pedra, o armazém da esquina continua servindo a pinga aos pescadores recém-chegados de mais uma busca frustrada, aquecendo seus corpos e aliviando outro dia desperdiçado. Patrício coloca sua única bagagem no chão e observa o vazio das alamedas. O espaço, que antes era tomado por peixeiros e pescadores negociando mercadorias, e crianças correndo atrás dos cachorros, jogando bola e gritando, agora é o habitat solitário de alguns bêbados e de procissões marchando à igreja da praça.
Depois de recolher sua mala, o viajante caminha em direção ao armazém. Enquanto se aproxima, observa sua volta e tenta compreender o que houve com sua antiga casa, sua terra. A trajetória é interrompida quando um senhor que estava encostado na parede do comércio desperta e fita o homem que se aproxima. Os dois se olham e logo Patrício reconhece o idoso. O ancião demora um pouco mais, mas também o reconhece.
- O desertor retornou, por fim. E quem o trouxe de volta foi a morte! - disse o maltrapilho, enquanto se erguia de seu sono ébrio e ajeitava suas calças empoeiradas.
As palavras mexem com Patrício. Um misto de sentimentos passa por seu corpo e o arrependimento por retornar já começa a abatê-lo. Contido, balança sua cabeça e respira fundo. A voz do idoso, ácida, o faz relembrar sua partida. Um turbilhão de memórias o atinge e suas pernas ficam trêmulas. Seu rosto empalidece e o ancião percebe isso. Entretanto, o esforço de não ceder à tristeza faz com que o homem se recomponha e olhe nos olhos do idoso, que recua e percebe sua mudança de fisionomia.
- Não, velho, foi a Morte quem me fez ir embora quando o mar levou minha família e me deixou sozinho neste mundo - respondeu Patrício.
Enquanto o senhor o observava, prossegiu sua jornada ao armazém. Lá dentro, foi recebido com alegria por Carlito, o dono do comércio. Os dois tinham o hábito de realizar grandes negócios com o peixe que Samuel e Patrício traziam. O comerciante já não estava mais tão próspero quanto havia sido naquela época. Carlito explicou a Patrício que, desde sua partida, a prosperidade deixou a vila e a pobreza fez com que muitos partissem em busca de trabalho em outro lugar. O peixe ficou escasso e os pescadores foram obrigados a procurar o sustento mar afora. O resultado foi o sumiço crescente dos trabalhadores e da renda dos moradores.
Profundamente abalado, o recém-chegado se despede e volta para a rua, caminhando pelas alamedas estreitas e vazias. O idoso já não estava mais na porta. Patrício resolveu ir ao cemitério e seguiu direto para lá, sem mais paradas. Ao mesmo tempo que suas pernas o levavam ao velório de Samuel, sua mente havia se desligado e seu corpo movia-se por instinto. Sua alma estava divagando. O mar não lhe saía da cabeça. Desde sua partida que não chegava perto de uma praia. Resolveu mudar seu rumo e seguiu em direção ao farol, ao norte da orla. Para qualquer outro homem, o cenário seria maravilhoso, digno de um cartão-postal. Contudo, as memórias da felicidade destruída o fazem sem cor, sem vida ou propósito para Patrício.
Ao caminhar pela areia, os pensamentos se distanciam no tempo e no espaço, trazendo de volta recordações. Quase no final do caminho de areia, Patrício viu algumas pedras, uma parede natural, e para lá se dirigiu. Depois de sentar-se sobre a formação mais alta, o ex-pescador observa o mar calmo, como um lençol azulado que cobre a terra. Seus olhos lacrimejam enquanto lembra de sua mulher e seu filho. Ambos foram tirados dele durante uma pescaria na enseada. Uma tempestade havia se formado subitamente, algo sobrenatural, e o barco virou entre as ondas, que tragaram sua família e nem um velório pôde ser realizado. Alguns dias depois da tragédia, Patrício acordou em uma praia, são e salvo, como por milagre. Como ele desejava não ter sobrevivido. Depois de venerar aquele que lhe dava o sustento, de dedicar sua vida a ele, uma enorme repulsa o consumia. A perdas o fizeram revoltar-se contra o mar, sua casa e seu sustento. Para ele, que justiça havia em ter aquilo que ele mais amava ser arrancado daquela forma? Patrício decidiu que o mar havia morrido também e que nunca mais pisaria no túmulo de sua família. Ele amaldiçoou aquele que o criou e jurou que o odiaria pelo resto de seus dias.
Agora, mais uma pessoa querida era levada para os domínios de Netuno. A revolta voltava a pulsar em suas veias e a fúria havia retornado. O velório simbólico que os familiares estavam realizando não era mais importante. O sangue quente somente sossegaria quando tudo aquilo saísse de seu coração: ódio, raiva e ira - o mundo era cinza novamente. Ironicamente, o céu estava se abrindo. Os raios de sol cortavam as núvens e tocavam a pele de Patrício. As lágrimas em seu rosto representavam a libertação de um peso que estava amarrado em sua alma durante quase dez anos e que o fazia sofrer a cada respiração. Ainda sobre a pedra mais alta, a revolta explodiu dentro de seu peito e um urro de fúria ecoou pelo ar, espantando os pássaros e estremecendo o calmo braço do oceano. O céu começou a fechar e, assim como havia ocorrido no passado trágico, uma tempestade se formou no ar, com raios cortando as nuvens e o vento levantando as ondas, agora altas e nervosas. O mar parecia responder com a mesma raiva que seu filho.
Patrício sente suas lágrimas se misturarem com a chuva. As gotas freqüentes sobre a enegrecida superfície da água formam um espelho distoricido refletindo as memórias dos que, com o sangue de sua família, jazem no mar agora. Os gritos de ódio do homem parecem desafiar o deus dos mares e ele responde com lampejos e estrondos pela atmosfera úmida. Do alto da parede rochosa, Patrício, tomado pela dor e dominado pela fúria, pula ao mar. Depois do encontro de seu corpo com a água, ambos se tornaram um ser único. Uma força o suga para baixo e tudo escurece. O homem sente seu corpo mover-se rapidamente sob a água e ser tragado cada vez mais para o fundo. O ar já não importa mais para seus pulmões e ele desiste de lutar. Silêncio. A dor foi embora e o mar volta a ficar calmo. O céu se abre novamente e os raios de luz cobrem as pedras agora vazias. A água volta a ser azul e os pássaros sobrevoam o farol novamente. As cores também voltam ao cenário de cartão-postal e o vento varre o ar de melancolia e de pobreza que cobriam o vilarejo de pescadores.
Com a volta de seu filho ao lar, o mar devolve à cidadela seu bem mais precioso. A prosperidade se encontra na forma de fartura na pescaria e aquele que era um maltrapilho recolhe sua rede cheia novamente. Sem a sombra que o trouxe de volta sobre si, Patrício reencontrou sua família perdida. Agora juntos, pai e filho libertam a antiga morada de sua maldição e a felicidade que havia sido tomada é restaurada. O mar levou de volta seu filho e agradeceu.
André Luis Cavallini Ferreira, março de 2008.
Sobre as dedicatórias
Saudações,
Depois de alguns meses postando textos nesta página, notei que o texto mais visitado até hoje é aquele que escrevi sobre o livro que dei de presente a minha noiva e que foi furtado, cujo tema era a dedicatória que eu havia escrito nele e a pouca importância que as pessoas dão a estas coisas. Pensando neste grande número de visitas, resolvi escrever um pouco sobre as dedicatórias de presentes, livros, em especial, e dar algumas dicas sobre como produzir algumas boas linhas para dar um toque personalizado e sentimental ao presentear alguém.
Em minha opinião, noventa porcento do que está escrito em uma dedicatória está presente no que se pensa ou sente sobre a pessoa a quem se destina o agrado. Por exemplo, quando se compra um livro que uma pessoa próxima quer e você sabe que é por determinado motivo que a pessoa o quer. Este é um dos motes para uma boa dedicatória, explorar o que o presente pode significar para quem o irá receber. Uma outra boa maneira de buscar inspiração é quando damos a alguma pessoa um artigo que nós mesmos já usufruímos e que gostamos tanto que pensamos que tal pessoa deva ter o mesmo prazer também. Interesses comuns são ótimas inspirações para escrever bons textos. A tentativa de levar alegria à pessoa que receberá o presente também. São exemplos muito interessantes de motivação. Lembre-se de que o que será ofertado será um símbolo de seu sentimento por quem receberá o presente.
Enumerarei algumas boas fontes de inspiração para produção de dedicatórias e as recomendações para qual tipo de presente se encaixa melhor o texto.
1. A recomendação de algo que foi útil ou que trouxe prazer (não importa o grau ou o tipo) para você e você quer que a pessoa experimente o mesmo - bom para CDs, DVDs, Livros, Perfumes e artigos pessoais - tanto para pessoas próximas quanto para apenas colegas ou conhecidos. Ex.:
Fulano(a),
Este … (coloque o nome do que está sendo oferecido) me trouxe experiências maravilhosas … (pode-se dizer algo pessoal, como o que mudou ou por que você quis o artigo) e gostaria de compartilhar contigo isto. Espero que todas as realizações … (ou outras coisas boas que o artigo tenha te proporcionado) que você deseja aconteçam e que você seja muito feliz.
Sinceramente,
XXXXX
2. O presente é algo que a pessoa queria e você sabe o quanto ela queria recebê-lo, inclusive o significado que o presente terá para a pessoa, pode ser qualquer tipo de artigo, desde roupas ou jóias, até mesmo uma agenda, não importa, é algo que terá muito valor para o presenteado. Ex.:
Minha querida Fulana,
Feliz … (coloque a ocasião ou motivo), que possamos comemorar muitos outros … ( o mesmo que foi colocado antes). Desejo que este presente (ou coloque o nome do que está sendo dado) te faça muito feliz, te traga alegria, a mesma que tenho em poder dar a você este presente.
(Acrescente algo pessoal, que reflita seus sentimentos pela pessoa ou algo particular que você saiba sobre ela e que seja interessante mostrar)
(despeça-se da forma coloquial, como você faria verbalmente)
Fulano.
3. Se o presente for algo de uso cotidiano, que será aplicado no trabalho, estudo, em casa, mas que será para o dia-a-dia da pessoa, seja honesto e diga realmente o motivo pelo qual você está oferecendo o objeto para ela. Diga se for para facilitar a vida dela, se for para suprir algo que acabou, se for um prêmio, dia o motivo da premiação etc.
4. Seja sempre sincero. Revelar seu pensamento e seu sentimento ao dar algo significativo para alguém sempre aumenta a proximidade com a pessoa, além de fazer muito bem ao ego dela saber que o presente tem significado tanto para ela quanto para você.
5. Se escrever não é o seu forte, apenas coloque em palavras o que você diria a ela. Mesmo de forma coloquial, seja informal ou não, diga o que gostaria de dizer de verdade. Os únicos cuidados que você deve ter são com a sua letra, pois, de que adianta você estar inspirado para escrever e na hora da pessoa ler ela terá a impressão de estar lendo uma receita de médico? Capriche na caligrafia. IMPORTANTE: Nunca faça uma dedicatória no computador e imprima. Isto mata qualquer tentativa de personalizar o presente. Faço exceção se for um poema, texto ou letra de música. Mas sempre escreva algo manuscrito para dar um toque pessoal ao negócio. O segundo cuidado é com a ortografia. Fique esperto com o que você escreve. Não use linguagem de Internet, ou seja, tente não abreviar as palavras ou suprimir letras. A não ser que você queira que a pessoa pense que seus sentimentos são abreviados ou, pior, que você tem preguiça de escrever uma dedicatória!! Leia o que você escreveu e tente fazer um rascunho. Se for usar palavras difíceis, tenha a certeza de saber escrevê-las direito. Nada pior do que ler uma dedicatória com palavras erradas ou que possam causar ambigüidade (duplo sentido), a não ser que seu objetivo seja este mesmo.
Bom, era isso. Se eu me lembrar de algo mais, coloco outro post aqui com os extras. Espero poder ajudar com este texto e dar uma luz para quem tem dificuldades em produzir dedicatórias inspiradas ou, simplesmente, colocar no papel o que pensa em dizer para a pessoa querida.
Até o próximo texto,
Contos
Começarei a postar alguns contos nesta página a partir de hoje. Havia optado por publicá-los em outro blog, porém, não havia divulgação lá.
Espero que gostem.
Até o próximo texto!
O uso do hífen, caso 1 - junto de ‘anti’
Saudações,
O uso do hífen sempre foi um problema sério. Perguntas do tipo: quando usar, como usar, esta palavra precisa de hífen? Pois, para tentar dirimir tais questões típicas do ser humano normal e usuário da linguagem escrita, escrevo este texto sobre o tema. Como há diversos usos para o dito ‘tracinho’, dividi o tópico em diversos posts. Para inaugurar o assunto no blog, vou direto ao causador de tal situação que mencionei acima: o uso do hífen junto ao prefixo ‘anti’.
OBS: Se você não sabe o que é um prefixo, nem continue lendo. Vá ao dicionário, busque o significado do verbete e depois volte aqui, combinado? OU Mande-me um e-mail e posso explicar, numa boa.
Continuando.
A regra para o uso deste sinal gráfico aliado ao prefixo mencionado é bastante simples, apesar de causar confusão. O ideal é memorizar quais as letras que a palavra que recebe o prefixo deve iniciar-se e que precisam do hífen. De acordo com o Manual de Redação e Estilo do jornal O Estado de São Paulo, de autoria de Eduardo Martins, qualquer palavra cuja primeira letra seja r, s ou h e for precedida por ‘anti’ deve receber o hífen. Ex.: anti-semita; anti-rábico; anti-séptico; anti-histamínico.
Ocorrem outros casos, porém, há algumas observações a serem feitas. Quando estamos falando de uma idéia adversativa, ou contrária, em português mais claro, substituindo a palavra ‘contra’, o hífen é necessário. Ex.: anti-Bush; anti-Clinton; anti-EUA.
Em breve postarei mais textos sobre o uso do hífen em outras situações.
Até o próximo texto!
Um abraço,
Filmes de terror - atualização do blog
Saudações,
Esta semana não postarei nenhum texto neste espaço. Depois de meses sem acessar o blog que criei para falar sobre filmes de terror, resolvi dar uma atualizada nos verbetes e incluir coisas novas por lá. Talvez, apenas talvez, escreva algo novo aqui até sexta. Todavia, não posso afirmar.
Para quem tiver curiosidade em visitar o outro blog, o endereço está na coluna ao lado, sob o nome Guia de Terror.
Até o próximo texto e um abraço,
Tirando dúvidas #1 - Concordância para ‘Águas Passadas’
Saudações,
Hoje recebi um comentário muito interessante do Josué. Antes de mais nada, obrigado pelo elogio. Fico contente que você esteja gostando do blog. Sobre sua dúvida, fiz uma pequena pesquisa e estes são os resultados. Acredito que era isto que você queria saber.
A expressão ‘águas passadas’, de acordo com o Manual de Redação e Estilo, de Eduardo Martins, sempre deve ser utilizada no plural. Especificamente, no caso da sua dúvida, o problema seria a concordância do verbo com a expressão, certo? Ainda de acordo com o Manual, a primeira regra de concordância verbal indica que o verbo sempre deverá concordar com o sujeito ao qual se refere. A oração que você me enviou como exemplo era: ‘isso é águas passadas’. Neste caso, a concordância está correta. O sujeito do período é ‘isso’, acompanhado do verbo de ligação ‘é’ e do predicativo do sujeito ‘águas passadas’. Pode parecer estranho que ‘isso’ seja indicado como o sujeito. Se é ‘isso’ que te perturba (perdoe o trocadilho!), o pronome está funcionando como repetição de outro termo que ficou implícito no contexto, suprimindo uma repetição. Vou exemplificar para ficar mais simples:
‘A concordância verbal sempre foi um problema para mim até que descobri a solução. Agora, isso é águas passadas.’
Veja que a concordância é feita entre o sujeito e o verbo, independentemente da expressão seguinte ser singular ou plural. O termo ‘isso’ está se referindo à idéia do problema com a concordância, que estava presente na oração anterior - que é singular, também, como o pronome. Se você quiser usar o verbo no plural, não tem problema. Todavia, será preciso fazer uma adaptação na oração para que não haja problemas de concordância. Devo concordar que fica muito estranho aos olhos o verbo aparecer no singular e o predicativo ser uma forma plural, mesmo sendo uma expressão idiomática ou popular. Apesar de correto, soa estranho mesmo. Nada é perfeito, não é? Para tentar ’suavizar’ esta estranheza, tentemos o seguinte:
‘As concordâncias sempre foram um problema para mim até que descobri a solução. Agora, estas são águas passadas.’
Melhorou?
Bom, Josué, espero ter ajudado a sanar sua dúvida. Sinta-se livre para comentar ou me mandar um e-mail com suas dúvidas. Terei imenso prazer em ajudá-lo.
Um abraço e até o próximo texto!
17/04/2008 - Regências
Saudações,
Hoje de manhã, quando fui verificar as estatísticas deste blog, tive uma ótima surpresa. O número de visitas do dia de ontem, 16 de abril de 2008, foi o maior durante estes quatro meses de existência. Esta página já teve mais de 1.300 acessos até ontem e isto me deixa muito contente. Obrigado a quem lê, gosta e faz uso do que exponho neste espaço. Muito obrigado!
Ainda com base no que vi nas estatísticas, notei que esta página foi acessada diversas vezes por causa de mecanismos de busca, tais como google, e uma das tags (palavras-chave) mais procuradas foi ‘o que são regência verbal e nominal’. Infelizmente, estas informações ainda não estavam disponíveis neste blog. Até agora. Para ajudar a solucionar estas dúvidas, o texto a seguir será breve, porém, explicativo sobre tal temática. Faço votos de que as informações sejam úteis para o leitor.
-x-x-x-
Regência Verbal e Regência Nominal
Antes de mais nada, é necessário saber o significado da palavra regência quando nos referimos à gramática. De acordo com o dicionário Houaiss, regência, significa a relação de dependência entre os termos de uma oração ou as orações de um período. As definições de oração e período são bem simples, porém, não tratarei delas agora. A definição do Curso Prático de Gramática, de Ernani Terra, para regência indica quase o mesmo que o dicionário, porém, de uma forma um pouco mais simples: Regência é a parte da gramática que trata das relações entre os termos da frase, verificando como se estabelece a dependência entre eles. Fiquemos com a segunda explicação.
Tendo como ponto de partida a explicação de Ernani Terra, as relações de depndência entre os termos de uma frase, oração ou entre orações podem ser classificadas como verbais ou nominais, dependendo do termo em análise. Para começarmos a falar sobre os tipos de regência, vamos conhecer o nome dos termos. O termo que pede o complemento é conhecido como regente. Seu complemento é conhecido como regido. Estes nomes servem tanto para o caso verbal quanto para o nominal.
Chamamos de regência nominal a situação na qual o termo regente é um nome. Por ‘nome’ entenda um substantivo, que pode aparecer na forma de sujeito, objeto direto ou indireto, predicativo, entre outros. Veja no exemplo:
Ex.: Os amigos tinham necessidade de apoio. - O termo regente é o substantivo necessidade e seu termo regido é apoio.
A denominação regência verbal é aplicada quando a análise se refere ao verbo como termo regente. O exemplo ilustra isto.
Ex.: Os amigos necessitavam de apoio. - O termo regente é o verbo necessitar e seu termo regido também é apoio.
OBS: Veja que nos dois exemplos são apresentados como termo regente palavras parecidas, com o mesmo radical (necess-), mas com funções diferentes. No primeiro exemplo, a forma substantivada - um nome. Já no segundo, a forma verbal - um verbo. Espero que isto não confunda o leitor. Caso haja alguma dúvida, mande-me um e-mail, OK?
Infelizmente, não há muito o que explicar sobre regências, especificamente. Em linhas gerais, a teoria está dada. Em cada caso, de um verbo ou de um substantivo, em especial, seria necessário desenvolver uma listagem de cada caso, de cada regência, de cada aplicação. Para acabar com estas dúvidas, consulte os dicionários específicos de regência nominal e verbal. Tenho como hábito consultar os publicados por Celso Pedro Luft. Para quem é estudante, fica mais fácil ir à biblioteca e pesquisar, pois tais livros custam uma nota (mais de 80 reais cada).
Para tentar ajudar um pouco mais, veja nos links a seguir duas listas com algumas das regências mais comuns e algumas explicações. O site é bem interessante e tem bases teóricas para vários pontos de gramática.
- Regência verbal: http://www.graudez.com.br/portugues/ch07s02.html
- Regência nominal: http://www.graudez.com.br/portugues/ch07s01.html
Note que ter uma boa noçao de regência é de grande valia quando falamos sobre outro tema bastante chato na hora de escrever um texto: a crase. O uso correto das preposições que acompanham verbos e nomes é essencial para fazer o bom uso deste recurso. Pretendo colocar um texto sobre Crase neste espaço, em breve. Por enquanto, divirta-se com as regências e aguarde por novidades gramaticais futuras.
Um abraço e até o próximo texto!
Crônicas e Agudas de um Hospital
Saudações,
Depois de ter uma experiência divertida, ontem, 15 de abril, em uma instituição particular de saúde, provocada por alguns problemas respiratórios oriundos do velho e bom ar-condicionado, resolvi dissertar um pouco sobre o que vi e experimentei. Caso o leitor não esteja interessado em ouvir reclamações ou críticas ao sistema de saúde, sugiro que vá dar uma volta e retorne mais para o final da semana, quando pretendo postar mais textos técnicos de gramática.
Semana passada, mais precisamente no dia 09 de abril, fiz uma visita a um Hospital particular de grande porte de Santo André. Não direi o nome dele nem o endereço, afim de evitar possíveis complicações. Estive lá durante duas horas, da 8 às 10 da manhã, fui atendido pelo balcão, pela enferemeira que faz a triagem (pré-consulta), pelo médico, tirei umas chapas do pulmão e do rosto e, por fim, passei com o médico novamente. Em duas horas, fiz este trajeto. Levando em conta que havia cerca de seis pessoas à minha frente, demorou, não concordam? Tudo bem, não era urgente, era através do convênio (que não é barato, é um de grande porte, cortesia do meu pai), dois fatores que não motivam o atendimento de uma empresa, digamos, não filantrópica.
Todavia, ontem a experiência foi absurda. Desde minha entrada, às 20h30, até minha saída, aproximadamente, às 23h50, vi uma total desordem. As pessoas não sabiam sequer como proceder para preencher a ficha, onde pegar a senha respectiva, pois, exitem alguns tipos de senhas diferentes. Para quem estava procurando a emergência, o nervosismo tomou conta. A maioria das pessoas chegava com crianças ou idosos. Como não poderia ser diferente, a prioridade era delas. Entretanto, o que eu vi foi um bando de pessoas preenchendo fichas a rodo, apenas repassando o problema para o próximo estágio, a pré-consulta.
Uma enfermeira cuidava da pré-consulta. Uma moça simpática e delicada, que mediria os sinais vitais, a temperatura e a pressão arterial do futuro paciente. Supõe-se que, depois desta pré-consulta, haveria o direcionamento dos doentes para o respectivo local. Porém, o mesmo processo da recepção ocorria, desta vez, ela definia a prioridade do atendimento. Ao que parece, a prioridade ainda eram as crianças e os idosos, seguidos de casos de pessoas passando mal ou que deram entrada através de ambulância. Será que se um médico fizesse esta ‘triagem’ não pouparia tempo? Depois de conversar com outras pessoas na sala de espera, concordamos que era um desperdício de tempo, uma burocracia, passar por lá antes de ir ao consultório. Se um ‘doutor’ já fizesse o trabalho, exames poderiam ser feitos de antemão, antecipando filas e mais demora.
Depois de conversar com a enfermeira, fiquei sabendo que haviam três médicos para atender quatorze pacientes antes da minha vez. Matematicamente, cinco para cada, já que eu era o décimo quinto (olha que raciocínio elaborado!). Se cada médico perdesse quinze minutos com cada atendimento, em menos de uma hora e meia eu seria atendido. Supimpa! Como já mencionei os horários anteriormente, quem ainda não se encheu desta história sabe que não demorou apenas isso.
Fui atendido pelo médico de plantão já havia visto o Jornal Nacional, a novela das ‘8′ e o Casseta. Ele olhou para mim, perguntou o que havia comigo e eu respondi que havia o mesmo que na semana passada, quando estive lá, no mesmo procedimento. Ele olhou para mim e perguntou novamente o que acontecia. Na minha ignorância, imaginei que os pacientes que passam pelo atendimento possuem prontuários ou fichas, arquivadas para o uso posterior. Será? Depois de explicar para o ‘cura’ o que já tinha dito à sua companheira de ofício alguns dias antes, para minha surpresa, fui encaminhado para a radiografia. Dou um real para quem adivinhar de onde. Dou mais outro real para quem adivinhar se na última consulta eu já tinha feito isso. Algumas dezenas de minutos depois, o diagnóstico: Infecção Pulmonar. Sabe qual a diferença para o diagnóstico da semana passada? Dou mais um real para quem souber.
Então, pelo menos, ganhei uma p… injeção na veia e uma inalação. Sim, estou melhor hoje. Vou continuar tomando o mesmo antibiótico que antes, outro xarope para expectorar e evitar o gelado. Pelo menos, já sei o que vou fazer na próxima quarta.
A crônica e o agudo de um hospital são os diversos problemas que a saúde do nosso País tem e que, quando pensamos que os convênios e os hospitais particulares são uma ótima alternativa, nos enganamos. Se eu estivesse com suspeita de dengue, teria ficado algumas horas na fila, da mesma forma que ficaria num posto de saúde. Não é certo que isto aconteça, nem em uma instituição particular, muito menos em uma pública. O mesmo vale para todos os outros serviços. As ‘receitas’ práticas dominam o mundo. Para tudo se tem uma fórmula, uma solução prática. Do ponto de vista administrativo, funciona muito bem. Do ponto de vista humanitário, quem pode definir a receita ou a fórmula de uma pessoa? Qual a lógica que uma pessoa tem? Apesar de sermos seres racionais, quando nossa saúde (ou integridade física, de um modo mais sério de se ver as coisas) ou a de um ente querido estão em questão, perdemos a calma, a razão. A lógica é receber o socorro e evitar o pior. Dou um… melhor, dois reais para quem souber a receita, ou fórmula, para lidar com as pessoas em situações extremas.
Vejam que esta reflexão se aplica a tudo, todas as áreas. Na saúde, na educação, na segurança pública, no trânsito. Tudo aquilo que é básico, essencial para a existência de uma sociedade em processo de evolução, está dissolvido entre o caos e o lucro. De um lado, quem quer uma fatia do bolo. Do outro, quem precisa comer o bolo. A analogia do bolo é um pouco estúpida, mas veja que é realista: quem usa o serviço e precisa dele, sofre. Quem possui recursos e não precisa se sujeitar às filas quer controlar o serviço. Simples assim. Realmente, a sociedade brasileira está no caminho certo. Nosso próximo passo para sermos um país de primeiro mundo será invadir um dos vizinhos e tomar o poder, como nosso melhor exemplo das fronteiras ao norte do continente.
Desculpe pelo texto ser um tanto chato e enfadonho. Mas acredito que um blog também sirva para opinar e criticar. Além do mais, ele é meu mesmo e eu escrevo o que me der na telha, não é mesmo? Agora já estou mais leve, reclamei bastante.
Até o próximo texto!
Um abraço,
14/04/2008 - O mistério dos ‘porquês’
Bom, depois de pensar em diversos temas interessantes para postar neste blog, concluí que seria uma boa idéia falar um pouco sobre os misteriosos ‘porquês’. Quando usa-se separado ou acentuado, sem acento e junto, as várias formas de uso e suas justificativas. A seguir, tentarei dar alguma idéia ou dica para facilitar a identificação do uso apropriado desta armadilha comum, além de passar um pouco dos conceitos técnicos gramaticais deles. Tentarei exemplificar para facilitar.
OBS: Que fique claro que as informações aqui postadas foram obtidas através de pesquisa em gramáticas, dicionários e no manual de redação e estilo do jornal O Estado de São Paulo, cujo autor faleceu esta noite. Se vale de algo, todo autor, escritor, redator, revisor ou quem quer que trabalhe com produção de textos, em minha opinião, deve ter à mão esta ferramenta. É muito útil e contém uma considerável gama de dicas para quem quer escrever de forma correta. Indico com confiança!
Por que (separado e sem acento)
Quando usar?
Os usos mais comuns do por que são dois. O primeiro é no início das perguntas. - Ex.: Por que você demorou? - O segundo uso é um pouco mais aberto a interpretações. Quando ele estiver indicando uma idéia de razão ou de motivo, com o aparecimento ou não destas palavras. - Ex.: Não sei por que razão ele faltou. Ninguém sabe por que motivo ele deixou o emprego. Eis por que o trânsito está congestionado. - no caso deste último exemplo, apesar de não aparecerem palavras indicadoras (motivo, razão, entre outras) é claro que o por que indica motivação dentro do contexto. Mais um exemplo para ajudar a entender: Veja por que seu dinheiro está valendo menos. - note que não estamos fazendo uma pergunta, é uma afirmação e tem tom de explicação, indica que a seguir saberemos o motivo pelo qual o dinheiro vale menos. Ficou mais claro? Na seqüência, darei uma dica para ficar mais simples.
Dica
Uma forma bem simples de identificar o uso desta modalidade de ‘porquês’ é a substituição do dito cujo por para que ou pelo qual e seus derivados (pela qual, pelos quais, pelas quais). Veja abaixo os exemplos:
- Todos lutamos por que haja maior justiça social. = Todos lutamos para que haja justiça social.
- Este é o caminho por que seguiu. = Este é o caminho pelo qual seguiu.
A teoria
No caso de ser possível a substituição do por que por pelo qual e seus companheiros, o que faz função de pronome relativo e por é uma preposição. Quando for um indicativo de razão e estiver na forma de pergunta, no final da sentença (como veremos mais adiante) ou não, o que passa a funcionar como um pronome interrogativo e o por continua como uma preposição.
-x-x-x-
Porque (junto e sem acento)
Quando usar?
Para este tipo, há uma fórmula bem mais simples. Em geral, o porque aparece quando se faz uma pergunta que tem uma idéia de já se saber a resposta. Complicou? Veja o exemplo e creio que ficará mais tranqüilo: Ex.: Você não foi porque choveu? - note que eu sei que choveu e estou supondo que sei que você não foi porque choveu. Melhorou?
Dica
Um outro modo de saber quando usar esta forma é a substituição. Quando for possível aplicar pois, uma vez que, porquanto, pelo fato de ou motivo de que, pode usar o porque (junto e sem acento) sem medo. Veja nos exemplos abaixo:
- Não viajei mais cedo porque perdi o avião. = Não viajei mais cedo pois perdi o avião. = Não viajei mais cedo pelo fato de ter perdido o avião. - neste último caso, houve uma adaptação do verbo para adequar o sentido, mas não perdemos o significado. OK?
A teoria
O porque (junto e sem acento) é uma conjunção explicativa ou causal.
-x-x-x-
Por quê (separado e com acento)
Quando usar?
Este é o mais simples dos casos. Ele sempre aparecerá separado e com acento quando estiver no final de uma pergunta ou afirmação. Sempre indicará uma questão sobre motivo ou razão, pode indicar dúvida ou não. Veja os exemplos, fica mais fácil:
- Estava triste sem saber por quê. - apesar de ser uma afirmação, expressa-se uma dúvida.
- Vocês brigaram, por quê? - da mesma forma, temos uma interrogativa, porém, expressa-se uma dúvida sobre motivo ou razão.
Dica
Sabendo-se que por que (separado e sem acento) indica um motivo ou razão, ao movê-lo para o final da oração, adiciona-se o acento circunflexo. Tranqüilo?. A melhor dica possível é ver no contexto se quem fala quer saber o motivo ou razão de algo.
A teoria
Seguindo a mesma idéia do por que (separado e sem acento) quando se tratar de uma interrogativa, o que funciona como um pronome interrogativo e o por como uma preposição.
-x-x-x-
Porquê (junto e com acento)
Quando usar?
O último dos casos descritos também pode ser visto com um dos mais simples. O porquê (junto e com acento) indica sempre uma razão, causa, motivo, pergunta ou indagação. Os exemplos abaixo clarificarão qualquer possível dúvida:
- Não sei o porquê de sua recusa. - neste caso, não se sabe o motivo pelo qual houve a recusa. Sacou o pelo qual? Uma dica fora da dica, eim?
- O diretor não quis explicar os porquês de suas decisões. - mais uma vez, fala-se sobre os motivos ou razões que não se sabe.
- Havia muitos porquês para poucas respostas. - por fim, mais um exemplo que indica razão ou movitos para haver dúvidas.
Dica
Ele sempre substitui alguma informação não apresentada (dúvida), implícita ou não, ou representará alguma informação já dita anteriormente e que está sendo novamente apresentada. Novamente, fique atento ao contexto. Esta forma sempre aparece como motivo ou razão e pode ser substituída por pelo qual e seus familiares. Fechado?
A teoria
A forma porquê, diferentemente das outras formas apresentadas, é um substantivo e sempre terá valor de motivo ou razão.
-x-x-x-
Espero que tenha ajudado a esclarecer mais alguns pontos problemáticos da gramática prática e reforço que estou sempre disposto a ajudar a tirar dúvidas de gramática ou produção de textos. Meu e-mail é alcferreira@gmail.com.
Um abraço e até o próximo texto!
PS: Postei a primeira parte de um conto chamado Caçador no meu outro blog, Canto do Conto. Quem gosta de contos urbanos, de terror e vampiros, confira!