O começo de ano sempre tem um ritmo diferente. As distribuidoras ao redor do mundo roem as unhas e imaginam se fizeram as escolhas certas ao promover determinada produção. A causa disso é a avalanche de premiações que o primeiro trimestre acumula e o desempenho dos concorrentes. Mas será que estes resultados influenciam o mercado tanto assim?
Como muitos já haviam previsto, o grande vencedor do Oscar®, e da maioria dos prêmios cinematográficos neste crítico início de ano, foi Quem Quer Ser um Milionário? (Europa Filmes). Os resultados não surpreenderam, porém, seus efeitos nas bilheterias foram notáveis e a campanha do filme de Danny Boyle nos cinemas norte-americanos ganhou um novo fôlego, que deve impulsionar sua estréia em muitos outros países, inclusive no Brasil. Na prática, antes da cerimônia e da consagração (concorreu a dez estatuetas e conquistou oito delas), sua carreira nas telonas era modesta, apesar de já ter superado seu orçamento em muitos milhões de dólares. Ainda em 2008, o filme teve uma estréia limitada, que rendeu pouco mais de US$ 5 milhões em quatro semanas – o que é considerado um valor normal para uma obra estrangeira. Porém, com a ventilação da notícia de suas inúmeras indicações, sua estréia ‘wide’ quase igualou o número acumulado até o momento (quase 5 milhões a mais). Na última semana de 2008, Quem Quer Ser um Milionário? Já havia superado seu orçamento: faturou mais de US$ 19 milhões e seu custo foi de aproximadamente US$ 15 milhões. Já em 2009, sua distribuição norte-americana aumentou e o filme ganhou lançamento digno de blockbusters hollywoodianos, chegando a 2.943 salas. O ponto de mudança foi muito próximo do anúncio dos indicados ao Oscar®, na segunda quinzena de janeiro, quando estava em exibição em 582 salas e passou a figurar em 1.411. Até o fechamento desta edição, o filme já havia alcançado a excelente marca de US$ 115 milhões nos EUA (3º lugar no ranking) e mais de US$ 96 milhões ao redor do globo.
O caso analisado prova que o reconhecimento da Academia, e dos demais sindicatos, tem muito valor para o público. É claro que o estudo acima envolve apenas o filme que mais prêmios faturou. Entretanto, a quantidade de prêmios conseguidos não é o único modo de impulsionar o desempenho de uma produção no Box Office. O fato de uma produção ser lembrada pelos membros dos júris ou sindicatos – e isso valer uma indicação – já motiva o público a conferir a película. Veja o exemplo de O Curioso Caso de Benjamin Button (Warner), que recebeu 13 indicações e levou apenas 3 prêmios. Até o fechamento deste artigo, o filme estrelado por Brad Pitt (indicado ao Oscar®) estava em cartaz há dez semanas, o que é uma respeitável carreira. Apesar de estar aquém do esperado, seu rendimento se manteve estável durante todo o período e, mesmo em ritmo de saída de cartaz, rendeu muito mais do que outras produções que estrearam ao longo destes últimos meses. Fora dos EUA, sua arrecadação foi excelente. Enquanto somou cerca de US$ 125 milhões em território norte-americano, faturou mais de US$ 175 milhões mundo afora e superou seu alto custo de produção.
Internacionalmente, diversos ‘oscarizados’ ganharam mais vigor nas bilheterias e aumentaram seu faturamento. Uma informação diferente: os ganhadores do Oscar® de melhor ator e atriz estrelaram produções que não tiveram a mesma abertura de outros blockbusters. Milk – A Voz da Igualdade (Universal), que consagrou Sean Penn, foi exibido em pouco mais de 800 salas nos EUA e arrecadou pouco mais de US$ 40 milhões mundialmente. O Leitor (Imagem Filmes), que rendeu o merecido reconhecimento a Kate Winslet como a grande atriz que é, também teve pouca expressão numérica nas bilheterias globais: somou US$ 48 milhões. E ambos estão em cartaz há mais de dez semanas. Performance similar foi a de O Lutador (Paris Filmes), que trouxe de volta aos holofotes o ator Mickey Rourke, que levou o Globo de Ouro® e o BAFTA de melhor ator, com justiça.
No Brasil, os efeitos desta balança de premiações, indicações e desempenho não tiveram grande influência, já que uma produção nacional estreou em dezembro do ano passado e não deu chances para ninguém chegar ao topo até a primeira semana de março. Se Eu Fosse Você 2 (Fox) desbancou qualquer outro filme que foi lançado. O único que se aproximou foi O Curioso Caso de Benjamin Button, que ostenta a segunda colocação entre as maiores bilheterias do ano por aqui. Deve ser levado em consideração o fato de que o grande hit do momento, Quem Quer Ser um Milionário?, só chegou aos cinemas nacionais em 6 de março e os resultados das bilheterias ainda não haviam sido divulgados até o fechamento desta seção, portanto, não foi possível verificar o desempenho do filme por aqui.
Concluindo, quanto mais distante do centro nervoso do cinema internacional se está, menor o efeito que um prêmio importante tem nos cinemas e nos lares dos amantes da Sétima Arte. Todavia, nem sempre este foco está concentrado nos EUA. Festivais que acontecem na Europa também influem na escolha do público. O mesmo vale para o Brasil, cujas mostras atraem cada vez mais público. Entretanto, mesmo com este crescimento, a atenção da audiência é frequentemente conduzida pela divulgação que determinada produção tem em círculo social, ou seja, o boca-a-boca. Nos tempos atuais, o eficiente ‘marketing viral’, que invade como uma tempestade os veículos de comunicação e induzem as pessoas a prestigiar determinado filme, tem sido muito mais eficiente do que o reconhecimento acadêmico e artístico das películas. Para espectador, que é a força motriz deste mercado, quanto mais parâmetros para avaliar melhor o que escolher como entretenimento, melhor. E quem ganha é sempre o mercado. André Cavallini
Confira quais os vencedores do Oscar 2009:
Melhor Filme
Quem Quer Ser um Milionário? (Europa Filmes)
Melhor Diretor
Danny Boyle, por Quem Quer Ser um Milionário?
Melhor Ator
Sean Penn, por Milk – A Voz da Igualdade (Universal)
Melhor Atriz
Kate Winslet, O Leitor (Imagem Filmes)
Melhor Ator Coadjuvante
Heath Ledger, por Batman – O Cavaleiro das Trevas (Warner)
Melhor Atriz Coadjuvante
Penélope Cruz, por Vicky Cristina Barcelona (Imagem Filmes)
Melhor Roteiro Adaptado
Simon Beaufoy, por Quem Quer Ser um Milionário?
Melhor Roteiro Original
Dustin Lance Black, por Milk – A Voz da Igualdade
Melhor Animação
Wall-E (Disney)
Melhor Filme em Língua Estrangeira
Departures (Japão)
Melhor Edição
Chris Dickens, por Quem Quer Ser um Milionário?”
Melhor Mixagem de Som
Ian Tapp, Richard Pryke e Resul Pookutty, por Quem Quer Ser um Milionário?
Melhor Edição de Som
Richard King, Batman – O Cavaleiro das Trevas
Melhor Canção Original
Jai Ho, de A. R. Rahman e Gulzar, por Quem Quer Ser um Milionário?
Melhor Trilha Sonora Original
A. R. Rahman, por Quem Quer Ser um Milionário?”
Melhor Direção de Fotografia
Anthony Dod Mantle, por Quem Quer Ser um Milionário?
Melhores Efeitos Visuais
Eric Barba, Steve Preeg, Burt Dalton e Craig Barron, por O Curioso Caso de Benjamin Button (Warner)
Melhor Maquiagem
Greg Cannom, por O Curioso Caso de Benjamin Button
Melhor Figurino
Michael O’Connor, por A Duquesa (Paramount)
Melhor Direção de Arte
Donald Graham Burt e Victor J. Zolfo, por O Curioso Caso de Benjamin Button
Melhor Documentário
O Equilibrista (California Filmes), de James Marsh e Simon Chinn
Melhor Documentário de Curta-metragem
Smile Pinki, de Megan Mylan
Melhor Curta-metragem Live Action
Spielzeugland (Toyland), de Jochen Alexander Freydank
Melhor Curta-metragem de Animação
La Maison en Petits Cubes, de Kunio Kato
0 respostas Até agora ↓
Ainda não há comentários... chute o balde preenchendo o formulário abaixo.