Entrevista com porta-voz da Redbox
Na mesma edição em que entrevistei o executivo da Netflix Steve Swasey (Ver Video 200), bati um papo com o porta-voz da Redbox. Eis abaixo o que ele me disse.
Vermelho forte
O mercado de locação de filmes nos EUA possui muitas opções diferentes e o público tem respondido muito bem aos novos modelos de negócio. Assim tem sido com o Redbox. Saiba mais sobre isso agora!
Em um universo de formatos e tipos de serviço disponíveis para o entretenimento, os EUA são o maior campo de provas para as novas tecnologias que estão surgindo de que se tem notícia. O público norte-americano é o melhor termômetro para se saber quando um modelo de negócio pode ou não ser bem-sucedido em outros países, como o Brasil, por exemplo, entre muitos outros. É verdade também que nem sempre o que funciona por lá pode ser aproveitado aqui, já nossa cultura e nosso poder aquisitivo não são os mesmos. No entanto, um sistema diferente de locação de DVDs tem funcionado muito bem por lá e não é de hoje. O Redbox é uma mescla de locação feita via Internet e que tem a entrega do produto físico por meio de quiosques, que ficam espalhados por lojas de conveniência e também em lanchonetes de fast-food. Ver Video conversou com o porta-voz da Redbox e conheceu um pouco mais sobre como nasceu este sistema inovador e a forma como ele funciona nos EUA. Veja a seguir a entrevista completa!
Ver Video – Como funciona o processo de locação da Redbox? Quem pode alugar filmes pelo sistema da empresa?
Redbox – O processo é muito simples e leva apenas alguns minutos. O cliente precisa ter mais de 18 anos de idade, ter a habilidade para manusear um teclado com a tecnologia touchscreen, que equipa nossos quiosques, e possuir um cartão de crédito.
VV – Quem desenvolveu este conceito de locação de DVDs? Como surgiu a ideia de usar os quiosques?
Redbox – Quem criou o primeiro quiosque para aluguel de DVDs foi a McDonald’s Ventures LLC, que administra a rede de lanchonetes desta marca. Isso aconteceu em 2002. Eles trabalhavam em um conceito de entretenimento que trouxesse mais público para as lojas de fast-food. O quiosque foi um sistema que passou pela realização de diversos testes, entre muitos outros que trabalhavam a distribuição de lançamentos em DVD, e que teve maior aceitação. E com o sucesso dele, uma série de melhorias e inovações foram integradas ao produto, criando um novo tipo de “auto-serviço”, que funciona segundo a conveniência do cliente.
VV – Quantos quiosques a Redbox possui em operação hoje e quantos associados o sistema possui?
Redbox – Atualmente, trabalhamos com uma rede de 19 mil quiosques, espalhados por todo o território dos EUA, situados nas maiores lanchonetes da rede McDonalds, lojas de conveniência, algumas unidades da rede Walmart e Walgreens, além de outros pontos estratégicos. Já atendemos milhões de clientes e milhares aderem ao nosso sistema a cada dia.
VV – O que difere a Redbox dos demais fornecedores de entretenimento doméstico? Qual o segredo do sucesso da empresa?
Redbox – Somos uma combinação de recursos diferenciados. Entre eles, podemos citar o preço de locação muito atrativo e acessível, nossa política de “alugue-e-devolva em qualquer lugar” (rent-and-return anywhere®), reservas que podem ser feitas via Internet e o fato de estarmos literalmente espalhados por todo o país. Até o momento, não há nenhum sistema similar no mercado que ofereça isso aos clientes e este é o ponto-chave do sucesso. Nossos clientes estão sempre contentes.
VV – Qual o perfil de um usuário tradicional deste tipo de serviço?
Redbox – O apelo deste tipo de serviço não se restringe a um segmento específico de público, sendo por faixa etária, escolaridade, sexo ou rendimento. Tudo muda de acordo com a região e com os fornecedores de conteúdo de cada lugar do país. Nossa abrangência é enorme.
VV – Quantos títulos estão disponíveis para locação atualmente?
Redbox – Cada quiosque, totalmente equipado, armazena cerca de 630 discos, somando aproximadamente 200 títulos em DVD diferentes.
VV – Quanto à quantidade de locações por mês, em média, são realizadas pela Redbox?
Redbox – Não temos números exatos disponíveis, mas calculamos que quase um milhão de DVDs são alugados por dia. Em 2009, nosso recorde de locações aconteceu na véspera do ano novo, que chegou perto dos dois milhões de discos locados.
VV – Como está a Redbox em outros países?
Redbox – Concentramos nossos negócios apenas nos EUA, estando presentes em 48 Estados e em alguns pontos de Porto Rico (território norte-americano na América Central). Nosso foco está em expandir os quiosques internamente, sem planos para fora do país.
VV – Quais eram as metas para 2009 e o que foi alcançado? O que esperam para 2010?
Redbox – Não temos o hábito de fornecer este tipo de informação à imprensa, porém, a Redbox sempre teve como meta o crescimento de seus serviços. Ela sempre pensa na frente na hora de oferecer mais comodidade a seus usuários.
VV – Que tipo de impacto no mercado do entretenimento doméstico vocês acreditam que tenham causado até hoje?
Redbox – Tivemos a capacidade de criar um modelo de negócio extremamente eficiente e popular entre os consumidores de home video e os resultados falam por si próprios com relação ao impacto no mercado. Nosso crescimento tem acontecido a passos largos desde o momento em que a empresa foi criada.
VV – Na opinião de vocês, quais são as melhores fontes de entretenimento para a casa do norte-americano hoje?
Redbox – Competimos tanto com as lojas físicas como com os serviços de entrega em domicílio, afora outros fornecedores de quiosques, que adaptaram nosso modelo de negócio e estão se expandido também. Isso sem falar em outras formas de entretenimento, que não são filmes ou seriados, como games e afins.
VV – A locação de discos de Blu-ray está nos planos da empresa para este ano?
Redbox – Atualmente, estamos estando a receptividade do mercado para este novo produto. Tudo depende da resposta do público, da demanda pelo Blu-ray em nossos quiosques.
VV – Recentemente, a Redbox se envolveu em problemas jurídicos envolvendo grandes estúdios de Hollywood por causa dos preços praticados pela empresa. Em que pé estão estas ações?
Redbox – Atualmente, estamos em litígio com a Universal Pictures, a 20th Century Fox e com a Warner Home Video. Não podemos comentar com a imprensa os resultados ou qualquer outra informação relacionada.
Entrevista realizada por André Cavallini
Entrevista Steve Swasey, da Netflix
Esta entrevista a seguir foi publicada na edição 200 da Ver Video (março)
Você conhece a Netflix?
Responsável por uma revolução no modo como o norte-americano aluga filmes, a Netflix hoje colhe os frutos de um ousado e bem-sucedido modelo de negócio. Mas será que ele se aplica a todos os países? Em entrevista exclusiva, Steve Swasey, vice-presidente de comunicação da empresa falou à Ver Video sobre isso e muito mais
O que começou com uma dor de cabeça acabou se tornando um negócio rentável e de muito sucesso, que conta com milhões de clientes espalhados por todo o território dos Estados Unidos. Em 1997, Mark Randolph, Mitch Lowe e Reed Hastings, três colegas de trabalho de Scotts Valley, na Califórnia, tiveram a ideia de criar um programa de computador e um portal na Internet que locasse filmes com entrega pelo correio. O conceito veio depois que Hastings teve um grande problema com sua vídeolocadora local depois que atrasou – e muito! – a entrega do filme Apollo 13 (Universal) e teve que arcar com as consequências financeiras do episódio. Um ano depois, em abril de 1998, o site, batizado de Netflix, entrou no ar, oferecendo locações individuais de filmes e cobrando as tradicionais diárias adicionais por atraso. Até aí, nada de novo. Em setembro de 1999 veio a grande virada, pois a Netflix adotou o sistema de assinaturas para o aluguel de DVDs, onde o cliente cadastrado pagaria uma tarifa mensal fixa pela locação de certo número de produtos, sem ter que pagar nada a mais por isso – inclusive livre das multas por atraso. A partir de então estava estabelecido um novo modelo de negócio no mercado rental norte-americano.
Para saber mais sobre funcionamento desse sistema inovador, que conquistou o público dos EUA e que parece ser o próximo passo das locadoras para sobreviver ao duro mercado da locação de discos, tanto em DVD quanto em Blu-ray, Ver Video procurou a Netflix e realizou uma entrevista exclusiva com o vice-presidente de comunicação da companhia, Steve Swasey, que conversou também sobre o interesse da empresa em expandir seus negócios para outros países, entre outros temas interessantes.
Ver Video – De uma ideia interessante para um novo modelo de negócio que mudou o panorama das locações de filmes em país tão grande quanto os Estados Unidos, qual foi segredo para conquistar tamanho sucesso?
Steve Swasey – O consumidor nos EUA sempre foi ávido por novidades, ainda mais por aquelas que levam mais conforto e comodidade à eles – ponto crucial este, já que todo o norte-americano quer ter o máximo de serviços e o mínimo de esforço. As pessoas sempre foram adeptas da locação de filmes e as locadoras viviam cheias. Só que chegou um momento em que elas já não satisfaziam mais 100% de sua clientela. Com a correria do dia-a-dia, nem sempre havia tempo para que o cliente fosse até a loja, escolhesse o filme a que queria assistir, e o pior, voltar à loja para entregar o disco. Com a Internet em franca expansão, quem não usasse de alguma forma o mundo virtual certamente perderia espaço no mercado. A Netflix surgiu justamente da união desses dois aspectos, já que somos uma empresa com base na loja virtual, onde o cliente pode ter acesso a todo nosso acervo, e não há multas por atraso. Essa soma de opções foi o que conquistou nosso público.
VV – O mercado dos EUA é enorme e a todo momento surge um novo tipo ou modelo de negócio. Como o consumidor reagiu sobre a ideia de alugar filmes sem sair de casa?
Swasey – Isso foi muito interessante, por que, para nossa surpresa, até então não havia uma empresa sequer no mercado que oferecesse esse tipo de serviço. Podemos dizer que foi inusitado ver a quantidade de pessoas que se interessou pela Netflix depois que passamos a oferecer o sistema de assinaturas. Com a popularização rápida da Internet de banda larga nos EUA, nosso negócio só aumentou. E a tendência é crescer ainda mais nos próximos anos.
VV – Por que a Netflix escolheu enviar e receber de volta os discos alugados pelo correio? Não há perdas pelo caminho? Qual a quantidade de discos extraviados?
Swasey – Nosso sistema de correios é muito eficiente, um dos melhores do mundo. Apesar de termos um departamento que cuida exclusivamente da qualidade dos discos que retornam para a empresa, a porcentagem de produtos que se perdem pelo caminho é mínima. O custo desse serviço de entrega e devolução é baixo também. Custa muito menos que despachar por empresas particulares, por exemplo. E a fidelidade dos clientes também é interessante, já que a parcela de filmes que não são devolvidos também é pequena.
VV – Como você definiria o perfil de um usuário ou cliente da Netflix?
Swasey – Não temos um tipo específico de cliente. Para usar os serviços da Netflix basta ser maior de idade e possuir um cartão de crédito. Entregamos o produto onde quer que o cliente esteja, desde que ele esteja cadastrado em nosso sistema. O perfil atual de usuário é bastante amplo. O que de início se resumia a universitários que viviam no computador ou pessoas de meia-idade com acesso à Internet e com vida profissional agitada, hoje pode ser revisto, já que famílias inteiras estão adotando nosso sistema como o favorito, incluindo até mesmo pessoas de mais idade que estão descobrindo a Internet. Então, respondendo à sua pergunta, praticamente qualquer pessoa pode ser nosso cliente ou usuário.
VV – Quando a Netflix resolveu adotar o sistema de assinatura e descontinuar o modelo anterior?
Swasey – Foi uma mudança radical, mas que aconteceu naturalmente para nós. Estávamos vendo que os negócios estavam estagnados e resolvemos testar novos sistemas. Um deles foi este, o de assinaturas, eliminando as multas por atraso e limitando a quantidade de filmes que cada cliente poderia ter em sua casa mensalmente. Foi uma ideia que pegou rapidamente e logo se tornou o nosso carro-chefe, deixando para trás o modelo de locação individual, que deixou de existir em nosso portal.
VV – Quantos assinantes a Netflix possui atualmente?
Swasey – Segundo dados levantados no final de 2009, possuímos mais de 12 milhões de associados.
VV – Segundo informações do portal da Netflix, a locadora conta com mais de 100 mil títulos, em DVD e Blu-ray. Como conseguiram chegar a esse número?
Swasey – Para atender à demanda do mercado e à nossa meta, que é a de levar para o consumidor o máximo das opções disponíveis no segmento, criamos um departamento específico para análise e compra de novos produtos. Acreditamos na força de um bom catálogo e foi com esse objetivo em mente que adquirimos todos os tipos de produção, não importa o estúdio ou o orçamento dela, desde que haja público para ela, mesmo que pequeno. O importante é que tenhamos o que quer que o cliente esteja procurando.
VV – Qual o impacto que a Netflix causou nas lojas de rental físicas? Qual a sua visão sobre isso?
Swasey – Tenho plena consciência de que a resposta do consumidor ao tipo de serviço prestado pela Netflix afetou profundamente a locadora física. Sei que muitas lojas acabaram fechando, não por causa da nossa empresa, mas por causa de uma mudança de mentalidade do norte-americano. O público estava em busca de facilidade e foi isso o que nós oferecemos. E as lojas físicas ainda continuam firmes nos EUA, apesar da redução do mercado.
VV – O senhor acredita que haja espaço para os dois modelos de negócio para o rental?
Swasey – Sim, acredito, apesar da linha que os separa ser bem estreita. Penso que o perfil de cliente de uma locadora física e de uma virtual seja similar quando se fala em seu gosto por ver filmes em casa. Porém, sempre haverá aquela pessoa que terá preferência em ir até a loja e pegar a caixa do filme na mão para ler a sinopse, pessoas mais táteis, por assim dizer. E há aqueles que buscam a comodidade, tanto por não quererem sair de casa mesmo quanto pelo fato terem um cotidiano agitado e não terem tempo para ir às locadoras de seu bairro.
VV – Como a Netflix está lidando com o Blu-ray? Já há demanda pela nova mídia?
Swasey – Logo que ficou decidido pelo mercado que a o formato da alta definição seria o do Blu-ray e não o do HD DVD. Começamos com poucos títulos em Blu-ray e fomos aumentando conforme a demanda dos nossos assinantes. Hoje podemos dizer que o formato corresponde a cerca de 10% do nosso faturamento. E a procura tem sido cada vez maior.
VV – A Netflix oferece hoje também o serviço de streaming em seu portal. Como isso começou e qual a resposta do público a esse novo serviço?
Swasey – Assim como foi com o serviço de assinatura, o streaming de filmes foi uma experiência que resolvemos fazer para testar a procura pelo modelo de locação. O que fazemos é o seguinte: quando um cliente aluga um filme em mídia física, ele fica imediatamente disponível para ser assistido por meio do streaming. Não é um serviço que tenha a mesma procura do DVD e do Blu-ray, mas também temos observado um pequeno aumento na procura. Hoje já estamos comercializando essa opção como parte dos planos de assinatura. Com as distribuidoras e os estúdios lançando seus títulos na forma do “day-and-date”, podemos oferecer todos os formatos ao mesmo tempo. Quando isso não acontece, nem sempre é possível disponibilizar a mídia física ao mesmo tempo da digital.
VV – A Netflix cogita adicionar o serviço de download digital aos seus produtos?
Swasey – Não, não pensamos em adotar este tipo de serviço. Nosso foco está na locação de filmes físicos e, agora, no streaming.
VV – A empresa hoje comercializa cotas de ações no mercado financeiro norte-americano. Como e quando isso aconteceu?
Swasey – A venda de cotas de participação por meio de ações teve início em 2002, quando a Netflix colocou no mercado um grande número de cotas (cerca de 5 milhões) e teve todas elas vendidas. Foi uma operação para capitalização do negócio em uma época em que estávamos crescendo novamente e havíamos consolidado o sistema de assinaturas nos EUA. Depois de tornarmos públicas uma parcela de nossas ações, voltamos a lucrar em 2003, assim como nossos acionistas. Podemos dizer que foi uma importante virada interna em nossa companhia.
VV – Uma vídeolocadora física pode adaptar-se e adotar o modelo utilizado pela Netflix? O que o senhor pode falar sobre o assunto?
Swasey – Qualquer empresa tem a liberdade de seguir o nosso modelo. É claro que temos uma série de mecanismos patenteados e que a cópia deles certamente seria um tipo de crime, mas nada impede que uma locadora física crie seu website e passe a entregar seus filmes no domicílio de seus associados. Tudo depende do tipo de clientela de cada loja e de cada região. E, claro, que o empresário tenha a visão para entender que o serviço tem potencial para funcionar ou não em sua região.
VV – O senhor conhece o mercado de locação brasileiro? A Netflix tem planos de se expandir para outros países, como o Brasil, por exemplo?
Swasey – Não posso dizer que sou um profundo conhecedor do mercado brasileiro de locação de filmes. O que posso afirmar é que o Brasil possui um dos maiores parques de locadoras do mundo e isso é bastante conhecido. Sobre a possibilidade de a Netflix ter uma filiar brasileira, posso afirmar que não está nos nossos planos. Nossa expansão se limita a atender a demanda dos EUA. Não planejamos chegar a outros países, como o Brasil, por exemplo, ou mesmo aos nossos vizinhos, como o México e o Canadá. Sei de outras empresas que adotaram o modelo de negócio em seus países, como o próprio Canadá, a Inglaterra e o Japão. A Netflix não pretende sair dos EUA.
Entrevista realizada por André Cavallini