Pensamentos Cotidianos, por André L C Ferreira


Com o pH um pouco mais neutro, mas nem tanto

Posted in cotidianos,pensamentos por andre1979 em janeiro 10, 2008
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Depois de deixar um pouco da minha acidez sair no post anterior, vou mudar um pouco de assunto neste que segue.

Com o aparecimento da nova edição do ‘grande irmão’, cuja fórmula exaustivamente explorada já não surte o mesmo efeito de antes – talvez a audiência (graças a Deus, Alá, Zeus, Odin, qualquer deus que faça parte do rol de divindades e de sua crença) tenha desenvolvido os glóbulos adequados para repelir esta atração imperdível da televisão aberta nacional-, fiz a soma, na minha cabeça, do programa com dois filmes que assisiti ultimamente. O que eles têm em comum e o motivo pelos quais ainda fazem sucesso com o público doméstico.

Na última semana, mais precisamente na sexta (04/01/08), escrevi um texto para a revista DVD News, editada pelo meu amigo Chacal, sobre o filme Temos Vagas, que está sendo lançado em DVD. Muito interessante este filme, com um elenco decente e uma produção bem feita. Não foi perda de tempo assisti-lo.

O enredo é um clichê: um casal em crise é obrigado a se hospedar em um hotel de beira de estrada, pois seu carro quebra no meio da noite e sem explicação lógica para tal, e os dois são vítimas de um grupo de assassinos. O grande barato da película é o que move os assassinos. Alguém já ouviu falar em ‘snuff movies’? Esse é o mote que guia os criminosos enquanto mutilam e torturam os hóspedes do estabelecimento – fazem tudo na frente de câmeras, que vigiam o quarto o tempo todo e gravam toda a ação dos assassinos, com o objetivo de vender os filmes para quem quiser comprar, como qualquer outro comércio do ramo.

Além do clima tenso e da sensação de claustrofobia que temos enquanto os quase-ex-casados fogem dos delinqüentes através de um túnel, os vídeos que são encontrados no quarto do hotel são muito divertidos. Eles mostram o que houve com os hóspedes anteriores, já vítimas, ou melhor, membros do casting das ditas produções caseiras. Valeu a pena ter visto e escrito.

Nesta semana, dia 07, peguei para ver o filme Paranóia. Um thriller juvenil, um suspense para ser visto na televisão aberta, sem maiores censuras ou expectativas. A trama conta a história de um jovem que, depois de perder o pai, passa a ter problemas de comportamento, agride um professor e é obrigado a cumprir prisão domiciliar durante três meses. Com um sensor preso à perna, não pode se afastar da casa ou é preso e vai para a cadeia. Depois de esgotar suas possibilidades de entretenimento, o rapaz adquire o hábito de vigiar sua vizinhança. Aos poucos passa a observar o comportamento dos moradores de sua rua, em especial, de sua bela vizinha, um interesse amoroso, e de um homem solitário, de quem suspeita ser um assassino.

Com a ajuda de sua paquera, passa a vigiar o homem, filmando todos os movimentos do vizinho. A paranóia surge na hora que o suspeito descobre ser vigiado e resolve devolver a gentileza. A tensão vai crescendo até o confronto entre o vigia e o vigiado, revelando a verdade – o cara é um assassino de verdade (puxa!). Note a inversão com relação ao filme anterior. Neste caso, a vítima é o observador.

Tá, qual o motivo, a ligação entre as três peças de entretenimento? As três tratam de voyeurismo. Uma tendência que cresce a cada dia na classe média mundial. Pode olhar ao seu redor (!?). Observe que, de cada dez pessoas de sua convivência, pelo menos oito assistem o programa diário. E, se não bastasse, ainda fazem disso um assunto social, presente em grande parte das conversas cotidianas, em sites de entretenimento e em programas TV. Além disso, filmes e outros programas de televisão com a mesma temática são sucessos de público e audiência. A enxurrada de reality shows é absurda e transborda uma tonelada de patrocinadores e milhões em publicidade, resultados do sucesso e do apelo junto aos que os acompanham de sua poltrona.

Não importa a forma como o enredo é fabricado e o quão criativo ele possa ser, sempre gira em torno da observação de algo. Acredito que as pessoas gostem de ver a vida que elas gostariam de levar. Ou talvez seja o fato de ver pessoas comuns colocadas à prova em situações absurdas e surreais, ao extremo, e suas reações mais diversas. Serão ratos de laboratório? Cobaias humanas para experimentos psicológicos?

O fato é que menos celebridades carimbadas são solicitadas e mais ilustres desconhecidos passam a ficar sob os holofotes. O custo-benefício desse movimento é extremamente rentável, já que as novas personalidades (??) surgem com contratos de exclusividade restritivos ao máximo e as emissoras têm aquilo que procuram: lucro rápido e pouco investimento.

De onde vem essa mania? Qual o motivo que leva as pessoas a serem tão curiosas ao ponto de passarem horas vendo uma pessoa dormir, comer, tomar banho (essa eu sei!) na TV?

Quem souber a resposta, por favor, avise. Por enquanto, faço votos para que esse martírio acabe logo. 

2 Respostas to 'Com o pH um pouco mais neutro, mas nem tanto'

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  1. romahribeiro said,

    Já ouviu falar em Skinner e psicologia comportamental? Fica a dica…

    O negócio é dormir cedo e deixar a TV de lado. Tanto a aberta quanto a por assinatura.

    Beijos!

  2. andre1979 said,

    É verdade…
    Eu lembro de algumas teorias comportamentais das aulas de psicologia da educação. Uma delas era sobre técnicas de condicionamento. Será que tem algo a ver com isso?

    Tenho uma pilha de livros para ler… não será difícil escolher o programa para as noites pós-fechamento da NBO!
    Bjs


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