Pensamentos Cotidianos, por André L C Ferreira


Conto: O Filho do Mar

Posted in conto,cotidianos,mitologia,o filho do mar,pensamentos,texto por andre1979 em junho 4, 2008
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Quase dez anos se passaram desde a última vez que Patrício esteve na cidade em que nasceu e viveu durante quase trinta anos. O tempo parece que parou. Pela estrada, o ônibus o leva para o lugar em que suas melhores e piores memórias estão guardadas. Infelizmente, as mais tristes prevalescem. O vento sopra em seus, já poucos, cabelos e o cheiro do mar traz de volta tudo o que estava lacrado e fadado ao esquecimento. O tempo parece que parou mesmo. A paisagem serrana, a pressão nos ouvidos, a umidade e o calor são os mesmos. Aos poucos, o corpo se acostuma e a náusea já não é mais causada pela viagem, mas pelo motivo dela. Há algumas horas, Patrício recebeu um telegrama cujo conteúdo era muito desagradável. Um amigo de infância, Samuel, com quem dividiu seu primeiro pesqueiro, Netuno, e foi seu padrinho de casamento, havia morrido – o mar o havia levado. Com isso, os ecos das vozes daqueles também levados pelo grande azul chamam seu nome novamente. Depois de fazer sua mala e ligar para o mercado avisando que se ausentaria, um grande esforço foi feito para que suas pernas o levassem à rodoviária.

Ao chegar ao vilarejo, a decadência parecia tomar conta do ambiente. Nas ruas de terra e pedra, o armazém da esquina continua servindo a pinga aos pescadores recém-chegados de mais uma busca frustrada, aquecendo seus corpos e aliviando outro dia desperdiçado. Patrício coloca sua única bagagem no chão e observa o vazio das alamedas. O espaço, que antes era tomado por peixeiros e pescadores negociando mercadorias, e crianças correndo atrás dos cachorros, jogando bola e gritando, agora é o habitat solitário de alguns bêbados e de procissões marchando à igreja da praça.

Depois de recolher sua mala, o viajante caminha em direção ao armazém. Enquanto se aproxima, observa sua volta e tenta compreender o que houve com sua antiga casa, sua terra. A trajetória é interrompida quando um senhor que estava encostado na parede do comércio desperta e fita o homem que se aproxima. Os dois se olham e logo Patrício reconhece o idoso. O ancião demora um pouco mais, mas também o reconhece.

– O desertor retornou, por fim. E quem o trouxe de volta foi a morte! – disse o maltrapilho, enquanto se erguia de seu sono ébrio e ajeitava suas calças empoeiradas.

As palavras mexem com Patrício. Um misto de sentimentos passa por seu corpo e o arrependimento por retornar já começa a abatê-lo. Contido, balança sua cabeça e respira fundo. A voz do idoso, ácida, o faz relembrar sua partida. Um turbilhão de memórias o atinge e suas pernas ficam trêmulas. Seu rosto empalidece e o ancião percebe isso. Entretanto, o esforço de não ceder à tristeza faz com que o homem se recomponha e olhe nos olhos do idoso, que recua e percebe sua mudança de fisionomia.

– Não, velho, foi a Morte quem me fez ir embora quando o mar levou minha família e me deixou sozinho neste mundo – respondeu Patrício.

Enquanto o senhor o observava, prossegiu sua jornada ao armazém. Lá dentro, foi recebido com alegria por Carlito, o dono do comércio. Os dois tinham o hábito de realizar grandes negócios com o peixe que Samuel e Patrício traziam. O comerciante já não estava mais tão próspero quanto havia sido naquela época. Carlito explicou a Patrício que, desde sua partida, a prosperidade deixou a vila e a pobreza fez com que muitos partissem em busca de trabalho em outro lugar.  O peixe ficou escasso e os pescadores foram obrigados a procurar o sustento mar afora. O resultado foi o sumiço crescente dos trabalhadores e da renda dos moradores.

Profundamente abalado, o recém-chegado se despede e volta para a rua, caminhando pelas alamedas estreitas e vazias. O idoso já não estava mais na porta. Patrício resolveu ir ao cemitério e seguiu direto para lá, sem mais paradas. Ao mesmo tempo que suas pernas o levavam ao velório de Samuel, sua mente havia se desligado e seu corpo movia-se por instinto. Sua alma estava divagando. O mar não lhe saía da cabeça. Desde sua partida que não chegava perto de uma praia. Resolveu mudar seu rumo e seguiu em direção ao farol, ao norte da orla. Para qualquer outro homem, o cenário seria maravilhoso, digno de um cartão-postal. Contudo, as memórias da felicidade destruída o fazem sem cor, sem vida ou propósito para Patrício.

Ao caminhar pela areia, os pensamentos se distanciam no tempo e no espaço, trazendo de volta recordações. Quase no final do caminho de areia, Patrício viu algumas pedras, uma parede natural, e para lá se dirigiu. Depois de sentar-se sobre a formação mais alta, o ex-pescador observa o mar calmo, como um lençol azulado que cobre a terra. Seus olhos lacrimejam enquanto lembra de sua mulher e seu filho. Ambos foram tirados dele durante uma pescaria na enseada. Uma tempestade havia se formado subitamente, algo sobrenatural, e o barco virou entre as ondas, que tragaram sua família e nem um velório pôde ser realizado. Alguns dias depois da tragédia, Patrício acordou em uma praia, são e salvo, como por milagre. Como ele desejava não ter sobrevivido. Depois de venerar aquele que lhe dava o sustento, de dedicar sua vida a ele, uma enorme repulsa o consumia. A perdas o fizeram revoltar-se contra o mar, sua casa e seu sustento. Para ele, que justiça havia em ter aquilo que ele mais amava ser arrancado daquela forma? Patrício decidiu que o mar havia morrido também e que nunca mais pisaria no túmulo de sua família. Ele amaldiçoou aquele que o criou e jurou que o odiaria pelo resto de seus dias.

Agora, mais uma pessoa querida era levada para os domínios de Netuno. A revolta voltava a pulsar em suas veias e a fúria havia retornado. O velório simbólico que os familiares estavam realizando não era mais importante. O sangue quente somente sossegaria quando tudo aquilo saísse de seu coração: ódio, raiva e ira – o mundo era cinza novamente. Ironicamente, o céu estava se abrindo. Os raios de sol cortavam as núvens e tocavam a pele de Patrício. As lágrimas em seu rosto representavam a libertação de um peso que estava amarrado em sua alma durante quase dez anos e que o fazia sofrer a cada respiração. Ainda sobre a pedra mais alta, a revolta explodiu dentro de seu peito e um urro de fúria ecoou pelo ar, espantando os pássaros e estremecendo o calmo braço do oceano. O céu começou a fechar e, assim como havia ocorrido no passado trágico, uma tempestade se formou no ar, com raios cortando as nuvens e o vento levantando as ondas, agora altas e nervosas. O mar parecia responder com a mesma raiva que seu filho.

Patrício sente suas lágrimas se misturarem com a chuva. As gotas freqüentes sobre a enegrecida superfície da água formam um espelho distoricido refletindo as memórias dos que, com o sangue de sua família, jazem no mar agora. Os gritos de ódio do homem parecem desafiar o deus dos mares e ele responde com lampejos e estrondos pela atmosfera úmida. Do alto da parede rochosa, Patrício, tomado pela dor e dominado pela fúria, pula ao mar. Depois do encontro de seu corpo com a água, ambos se tornaram um ser único. Uma força o suga para baixo e tudo escurece. O homem sente seu corpo mover-se rapidamente sob a água e ser tragado cada vez mais para o fundo. O ar já não importa mais para seus pulmões e ele desiste de lutar. Silêncio. A dor foi embora e o mar volta a ficar calmo. O céu se abre novamente e os raios de luz cobrem as pedras agora vazias. A água volta a ser azul e os pássaros sobrevoam o farol novamente. As cores também voltam ao cenário de cartão-postal e o vento varre o ar de melancolia e de pobreza que cobriam o vilarejo de pescadores.

Com a volta de seu filho ao lar, o mar devolve à cidadela seu bem mais precioso. A prosperidade se encontra na forma de fartura na pescaria e aquele que era um maltrapilho recolhe sua rede cheia novamente. Sem a sombra que o trouxe de volta sobre si, Patrício reencontrou sua família perdida. Agora juntos, pai e filho libertam a antiga morada de sua maldição e a felicidade que havia sido tomada é restaurada. O mar levou de volta seu filho e agradeceu.

André Luis Cavallini Ferreira, março de 2008.

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