Pensamentos Cotidianos, por André L C Ferreira


Bate-papo com Hector Babenco

Saudações,

Depois de oitenta anos sem postar (!), resolvi voltar a colocar nesta página os textos que escrevo para a revista em que trabalho. O texto a seguir é fruto de uma entrevista que fiz em julho com o grande cineasta Hector Babenco, responsável por pérolas do cinema internacional, como Pixote – A Lei do Mais Fraco e Carandiru, citando apenas alguns. O mote do nosso bate-papo foi o lançamento em DVD de algumas de suas obras. Confira e comente!

OBS: O material abaixo é a primeira versão da entrevista e não está editado. O texto sofreu grandes “adaptações” para ser publicado, portanto, quem ler a versão impressa sentirá grande diferença entre os dois.

Lançamento pela Europa Filmes

Lançamento pela Europa Filmes

Histórico e restaurado

Considerado um marco do cinema nacional, Pixote – A Lei do Mais Fraco está sendo lançado em DVD pela Europa Filmes e o diretor Hector Babenco bateu um papo com Ver Video sobre o assunto

O ano de 1981 foi marcante para o cinema brasileiro. Foi nele que o cineasta Hector Babenco levou paras telas uma obra-prima: Pixote – A Lei do Mais Fraco. O filme emocionou e chocou platéias e ganhou diversos prêmios, sendo, inclusive, indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, em 1982. A produção conta a história de um menino pobre, que vivia nas ruas e vai parar na FEBEM, onde faz amigos e volta para o crime depois de se envolver com um traficante e uma prostituta, o que leva a um final trágico.

O tempo passou, o filme chegou às prateleiras nacionais em VHS e continuou sua bem-sucedida jornada pela cultura brasileira. Quando a “Era do VHS” acabou e o DVD se tornou a mídia do momento, Pixote ficou esquecido e não foi lançado… Até agora! A Europa Filmes lançará, ao longo dos próximos meses, diversos filmes de Babenco e o primeiro da lista é justamente este, que marcou época. A versão para locação, que chega agora em setembro, no dia 9, não terá material extra (que será adicionado para o lançamento no varejo, em 2010), mas conta com uma versão totalmente restaurada, um verdadeiro trabalho de arte, como nos conta o próprio diretor Hector Babenco, em um bate-papo exclusivo.

Ver Video – O senhor tem uma longa carreira e diversos filmes lançados nos cinemas. Porém, poucos desses filmes chegaram ao DVD. Por que o senhor demorou tanto para lançá-los?
Hector Babenco – Todos os meus filmes mais antigos saíram em VHS e nunca mais foram editados. Eu recebi várias propostas para relançá-los, mas eu nunca me senti seguro para fazer isso com elas empresas que me procuraram. Havia muitas lojas pequenas, a pirataria estava crescendo muito nas locadoras, ainda no VHS. Fui deixando o tempo passar e não me interessei mais por isso. Quando chegou o DVD, lancei os filmes novamente, mas não reeditei mais nenhum, esperando surgir uma grande oportunidade para lançar todos os meus filmes, inclusive os americanos, entende? E foi o que eu consegui fazer agora com a Europa. Com ela, não estou lançando apenas os filmes, mas também os making ofs, que foram sendo produzidos ao longo do tempo. Por exemplo, o de Pixote, que levou quatro anos para ser feito e tem entrevistas com todo mundo, e o de O Beijo da Mulher Aranha, que levou oito anos para ser concluído. Rodamos o mundo inteiro entrevistando pessoas, inclusive o autor do livro, que já morreu. São histórias fantásticas que acompanham o DVD.

VV – Os filmes foram todos restaurados, remasterizados, para o lançamento em DVD, certo? Como foi o processo?

Babenco – Correto. Os negativos já haviam sido muito manuseados, estavam muito gastos, muito velhos. Nós restauramos todos os filmes digitalmente, quadro por quadro, refez o som de todos eles, que agora estão em Dolby 5.1. A cópia do Pixote – A Lei do Mais Fraco que vocês poderão ver no DVD está melhor que a original que lançamos no cinema, nos anos 80. Não foi apenas uma rematerização deles, foi um processo de restauração mesmo, algo artístico, que deu muito trabalho. É importante que se saiba isso.

VV – Sobre o material adicional que chegará com os DVDs que serão distribuídos no varejo, o senhor já os havia feito na época do VHS ou são informações reunidas e produzidas mais recentemente?

Babenco – Os dois. Na verdade, reunimos um material que fomos produzindo na época e fomos adicionando coisas com o passar dos anos. Tem muito material que é amador mesmo, que foi capturado nos bastidores na época e que fomos melhorando para lançar agora.

VV – Com relação aos filmes mais recentes do senhor, como O Passado e Carandiru, que já foram lançados em DVD, haverá algum material adicional inédito para eles?

Babenco – Não produzimos nada de diferente, temos apenas os making ofs mesmo.

VV – O senhor poderia apontar quais dos filmes do senhor que estão sendo lançados e que teriam mais destaque para o público?

Babenco – Olha, o Pixote é considerado um dos 100 melhores filmes da história do cinema, um verdadeiro clássico. Acredito que ele seja tão importante quanto um filme de Antonioni, de Truffaut, Bruñel, que já foi visto no mundo todo. Por isso, acho que ele se destaca. Também tem O Beijo da Mulher Aranha, que foi muito comentado internacionalmente. Os dois merecem estar na coleção do apreciador brasileiro.

VV – Quais são os próximos projetos do senhor?

Babenco – Estou trabalhando em dois projetos ao mesmo tempo. Um deles se chama A Brasileira e o outro, Cidade Maravilhosa.

VV – Qual deles chegará primeiro? O senhor tem alguma previsão?

Babenco – Na verdade, não! Estou fazendo os dois ao mesmo tempo, estão correndo um atrás do outro. O que ficar pronto primeiro, sai antes. Não estou priorizando um ou outro. Tenho trabalho para os próximos três anos, pode ter certeza! Os dois são longas-metragens. O A Brasileira está sendo rodado bastante na Espanha e o outro, no Rio de Janeiro. Mas ambos estão ainda em processo de pré-produção.

VV – Com relação ao Blu-ray, o senhor tem planos de lançar os seus filmes nesta nova tecnologia no Brasil?

Babenco – O filme O Beijo da Mulher Aranha já saiu em Blu-ray nos EUA. Não pensei em lançar assim aqui no Brasil, ainda. Acredito que a tecnologia ainda está sendo absorvida lentamente aqui, mas quem sabe? Vamos ver.

VV – O que o senhor pensa deste grande mercado cinematográfico que está se abrindo no Brasil, com vários grandes títulos fazendo sucesso, a comédia em especial?

Babenco – As comédias sempre reinaram. Desde a época da Atlântida, das chanchadas. O povo brasileiro é um povo muito feliz, mesmo com todas as dificuldades que enfrenta na vida. Sempre há uma coisa pícara, uma coisa sensual, que acaba funcionando no Brasil. Acredito que é por isso que os filmes mais cômicos que estão saindo caem no gosto do público. E eles também se aproximam muito do que se vê na televisão, o que motiva também as pessoas a irem ao cinema. Ainda há o apelo mais erótico e sensual, que a televisão não pode mostrar e que instiga o público a ver isso também. Mas não é só a comédia. Veja o Carandiru, por exemplo. Não é uma comédia e fez muito mais sucesso que vários destes filmes que estão estourando hoje. Eu diria que o público brasileiro é muito sábio, que escolhem os filmes a que assistem. O Divã é um bom filme, o A Mulher Invisível é uma ideia genial, Se Eu Fosse Você é muito bem feito. Não apenas por serem divertidos, mas por serem ótimos filmes é que fazem sucesso.

VV – O senhor acredita que essa é apenas uma fase passageira do cinema no Brasil ou podemos esperar que seja uma situação duradoura a procura do público pela produção nacional? A gente continuará vendo filmes brasileiros melhores e com maior resposta do público?

Babenco – Acredito que o público seja como clientes de loja, que sai em busca daquilo que lhe agrada mais e, quando encontra, volta sempre. Se você é bem atendido e se sente feliz com isso, certamente vai voltar lá. O mesmo funciona com os filmes. O mito de que filme brasileiro é chato, mal feito, que não tem o som bom, já caiu. Nossas produções estão tão competitivas quanto as estrangeiras, nosso áudio é tão bom quanto o deles. E estamos em alta no mercado hoje. Temos que aproveitar essa onda e mantermos o nível alto por aqui.

Entrevista realizada por André Cavallini

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