Pensamentos Cotidianos, por André L C Ferreira


Entrevista Steve Swasey, da Netflix

Posted in cotidianos,locação de filmes,pensamentos,texto por andre1979 em outubro 27, 2010
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Esta entrevista a seguir foi publicada na edição 200 da Ver Video (março)

Você conhece a Netflix?

Responsável por uma revolução no modo como o norte-americano aluga filmes, a Netflix hoje colhe os frutos de um ousado e bem-sucedido modelo de negócio. Mas será que ele se aplica a todos os países? Em entrevista exclusiva, Steve Swasey, vice-presidente de comunicação da empresa falou à Ver Video sobre isso e muito mais

O que começou com uma dor de cabeça acabou se tornando um negócio rentável e de muito sucesso, que conta com milhões de clientes espalhados por todo o território dos Estados Unidos. Em 1997, Mark Randolph, Mitch Lowe e Reed Hastings, três colegas de trabalho de Scotts Valley, na Califórnia, tiveram a ideia de criar um programa de computador e um portal na Internet que locasse filmes com entrega pelo correio. O conceito veio depois que Hastings teve um grande problema com sua vídeolocadora local depois que atrasou – e muito! – a entrega do filme Apollo 13 (Universal) e teve que arcar com as consequências financeiras do episódio. Um ano depois, em abril de 1998, o site, batizado de Netflix, entrou no ar, oferecendo locações individuais de filmes e cobrando as tradicionais diárias adicionais por atraso. Até aí, nada de novo. Em setembro de 1999 veio a grande virada, pois a Netflix adotou o sistema de assinaturas para o aluguel de DVDs, onde o cliente cadastrado pagaria uma tarifa mensal fixa pela locação de certo número de produtos, sem ter que pagar nada a mais por isso – inclusive livre das multas por atraso. A partir de então estava estabelecido um novo modelo de negócio no mercado rental norte-americano.

Para saber mais sobre funcionamento desse sistema inovador, que conquistou o público dos EUA e que parece ser o próximo passo das locadoras para sobreviver ao duro mercado da locação de discos, tanto em DVD quanto em Blu-ray, Ver Video procurou a Netflix e realizou uma entrevista exclusiva com o vice-presidente de comunicação da companhia, Steve Swasey, que conversou também sobre o interesse da empresa em expandir seus negócios para outros países, entre outros temas interessantes.

Ver Video – De uma ideia interessante para um novo modelo de negócio que mudou o panorama das locações de filmes em país tão grande quanto os Estados Unidos, qual foi segredo para conquistar tamanho sucesso?

Steve Swasey – O consumidor nos EUA sempre foi ávido por novidades, ainda mais por aquelas que levam mais conforto e comodidade à eles – ponto crucial este, já que todo o norte-americano quer ter o máximo de serviços e o mínimo de esforço. As pessoas sempre foram adeptas da locação de filmes e as locadoras viviam cheias. Só que chegou um momento em que elas já não satisfaziam mais 100% de sua clientela. Com a correria do dia-a-dia, nem sempre havia tempo para que o cliente fosse até a loja, escolhesse o filme a que queria assistir, e o pior, voltar à loja para entregar o disco. Com a Internet em franca expansão, quem não usasse de alguma forma o mundo virtual certamente perderia espaço no mercado. A Netflix surgiu justamente da união desses dois aspectos, já que somos uma empresa com base na loja virtual, onde o cliente pode ter acesso a todo nosso acervo, e não há multas por atraso. Essa soma de opções foi o que conquistou nosso público.

VV – O mercado dos EUA é enorme e a todo momento surge um novo tipo ou modelo de negócio. Como o consumidor reagiu sobre a ideia de alugar filmes sem sair de casa?

Swasey – Isso foi muito interessante, por que, para nossa surpresa, até então não havia uma empresa sequer no mercado que oferecesse esse tipo de serviço. Podemos dizer que foi inusitado ver a quantidade de pessoas que se interessou pela Netflix depois que passamos a oferecer o sistema de assinaturas. Com a popularização rápida da Internet de banda larga nos EUA, nosso negócio só aumentou. E a tendência é crescer ainda mais nos próximos anos.

VV – Por que a Netflix escolheu enviar e receber de volta os discos alugados pelo correio? Não há perdas pelo caminho? Qual a quantidade de discos extraviados?

Swasey – Nosso sistema de correios é muito eficiente, um dos melhores do mundo. Apesar de termos um departamento que cuida exclusivamente da qualidade dos discos que retornam para a empresa, a porcentagem de produtos que se perdem pelo caminho é mínima. O custo desse serviço de entrega e devolução é baixo também. Custa muito menos que despachar por empresas particulares, por exemplo. E a fidelidade dos clientes também é interessante, já que a parcela de filmes que não são devolvidos também é pequena.

VV – Como você definiria o perfil de um usuário ou cliente da Netflix?

Swasey – Não temos um tipo específico de cliente. Para usar os serviços da Netflix basta ser maior de idade e possuir um cartão de crédito. Entregamos o produto onde quer que o cliente esteja, desde que ele esteja cadastrado em nosso sistema. O perfil atual de usuário é bastante amplo. O que de início se resumia a universitários que viviam no computador ou pessoas de meia-idade com acesso à Internet e com vida profissional agitada, hoje pode ser revisto, já que famílias inteiras estão adotando nosso sistema como o favorito, incluindo até mesmo pessoas de mais idade que estão descobrindo a Internet. Então, respondendo à sua pergunta, praticamente qualquer pessoa pode ser nosso cliente ou usuário.

VV – Quando a Netflix resolveu adotar o sistema de assinatura e descontinuar o modelo anterior?

Swasey – Foi uma mudança radical, mas que aconteceu naturalmente para nós. Estávamos vendo que os negócios estavam estagnados e resolvemos testar novos sistemas. Um deles foi este, o de assinaturas, eliminando as multas por atraso e limitando a quantidade de filmes que cada cliente poderia ter em sua casa mensalmente. Foi uma ideia que pegou rapidamente e logo se tornou o nosso carro-chefe, deixando para trás o modelo de locação individual, que deixou de existir em nosso portal.

VV – Quantos assinantes a Netflix possui atualmente?

Swasey – Segundo dados levantados no final de 2009, possuímos mais de 12 milhões de associados.

VV – Segundo informações do portal da Netflix, a locadora conta com mais de 100 mil títulos, em DVD e Blu-ray. Como conseguiram chegar a esse número?

Swasey – Para atender à demanda do mercado e à nossa meta, que é a de levar para o consumidor o máximo das opções disponíveis no segmento, criamos um departamento específico para análise e compra de novos produtos. Acreditamos na força de um bom catálogo e foi com esse objetivo em mente que adquirimos todos os tipos de produção, não importa o estúdio ou o orçamento dela, desde que haja público para ela, mesmo que pequeno. O importante é que tenhamos o que quer que o cliente esteja procurando.

VV – Qual o impacto que a Netflix causou nas lojas de rental físicas? Qual a sua visão sobre isso?

Swasey – Tenho plena consciência de que a resposta do consumidor ao tipo de serviço prestado pela Netflix afetou profundamente a locadora física. Sei que muitas lojas acabaram fechando, não por causa da nossa empresa, mas por causa de uma mudança de mentalidade do norte-americano. O público estava em busca de facilidade e foi isso o que nós oferecemos. E as lojas físicas ainda continuam firmes nos EUA, apesar da redução do mercado.

VV – O senhor acredita que haja espaço para os dois modelos de negócio para o rental?

Swasey – Sim, acredito, apesar da linha que os separa ser bem estreita. Penso que o perfil de cliente de uma locadora física e de uma virtual seja similar quando se fala em seu gosto por ver filmes em casa. Porém, sempre haverá aquela pessoa que terá preferência em ir até a loja e pegar a caixa do filme na mão para ler a sinopse, pessoas mais táteis, por assim dizer. E há aqueles que buscam a comodidade, tanto por não quererem sair de casa mesmo quanto pelo fato terem um cotidiano agitado e não terem tempo para ir às locadoras de seu bairro.

VV – Como a Netflix está lidando com o Blu-ray? Já há demanda pela nova mídia?

Swasey – Logo que ficou decidido pelo mercado que a o formato da alta definição seria o do Blu-ray e não o do HD DVD. Começamos com poucos títulos em Blu-ray e fomos aumentando conforme a demanda dos nossos assinantes. Hoje podemos dizer que o formato corresponde a cerca de 10% do nosso faturamento. E a procura tem sido cada vez maior.

VV – A Netflix oferece hoje também o serviço de streaming em seu portal. Como isso começou e qual a resposta do público a esse novo serviço?

Swasey – Assim como foi com o serviço de assinatura, o streaming de filmes foi uma experiência que resolvemos fazer para testar a procura pelo modelo de locação. O que fazemos é o seguinte: quando um cliente aluga um filme em mídia física, ele fica imediatamente disponível para ser assistido por meio do streaming. Não é um serviço que tenha a mesma procura do DVD e do Blu-ray, mas também temos observado um pequeno aumento na procura. Hoje já estamos comercializando essa opção como parte dos planos de assinatura. Com as distribuidoras e os estúdios lançando seus títulos na forma do “day-and-date”, podemos oferecer todos os formatos ao mesmo tempo. Quando isso não acontece, nem sempre é possível disponibilizar a mídia física ao mesmo tempo da digital.

VV – A Netflix cogita adicionar o serviço de download digital aos seus produtos?

Swasey – Não, não pensamos em adotar este tipo de serviço. Nosso foco está na locação de filmes físicos e, agora, no streaming.

VV – A empresa hoje comercializa cotas de ações no mercado financeiro norte-americano. Como e quando isso aconteceu?

Swasey – A venda de cotas de participação por meio de ações teve início em 2002, quando a Netflix colocou no mercado um grande número de cotas (cerca de 5 milhões) e teve todas elas vendidas. Foi uma operação para capitalização do negócio em uma época em que estávamos crescendo novamente e havíamos consolidado o sistema de assinaturas nos EUA. Depois de tornarmos públicas uma parcela de nossas ações, voltamos a lucrar em 2003, assim como nossos acionistas. Podemos dizer que foi uma importante virada interna em nossa companhia.

VV – Uma vídeolocadora física pode adaptar-se e adotar o modelo utilizado pela Netflix? O que o senhor pode falar sobre o assunto?

Swasey – Qualquer empresa tem a liberdade de seguir o nosso modelo. É claro que temos uma série de mecanismos patenteados e que a cópia deles certamente seria um tipo de crime, mas nada impede que uma locadora física crie seu website e passe a entregar seus filmes no domicílio de seus associados. Tudo depende do tipo de clientela de cada loja e de cada região. E, claro, que o empresário tenha a visão para entender que o serviço tem potencial para funcionar ou não em sua região.

VV – O senhor conhece o mercado de locação brasileiro? A Netflix tem planos de se expandir para outros países, como o Brasil, por exemplo?

Swasey – Não posso dizer que sou um profundo conhecedor do mercado brasileiro de locação de filmes. O que posso afirmar é que o Brasil possui um dos maiores parques de locadoras do mundo e isso é bastante conhecido. Sobre a possibilidade de a Netflix ter uma filiar brasileira, posso afirmar que não está nos nossos planos. Nossa expansão se limita a atender a demanda dos EUA. Não planejamos chegar a outros países, como o Brasil, por exemplo, ou mesmo aos nossos vizinhos, como o México e o Canadá. Sei de outras empresas que adotaram o modelo de negócio em seus países, como o próprio Canadá, a Inglaterra e o Japão. A Netflix não pretende sair dos EUA.

Entrevista realizada por André Cavallini

 

 

 

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