Pensamentos Cotidianos, por André L C Ferreira


Pedaços de afeto – as dedicatórias de um livro

Posted in 14-01-08,cotidianos,pensamentos,termas romanas por andre1979 em janeiro 14, 2008
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Depois de mais um início de semana empolgante, com direito a um trem equipado com sauna, revivendo os tempos clássicos das termas romanas, dou início a mais um texto neste blog. Muito bom dia a quem estiver lendo estas palavras.

Para variar um pouco, falarei sobre as coisas boas da vida e do mundo contemporâneo. – Enganei um bobo na casca do ovo! – Se você acreditou nisso, sinto muito. Estou revoltado com as pessoas, de modo geral. Nunca perdi as esperanças de que, neste mundo de corrupções, violência e de pessoas se aproveitando umas das outras, haveria salvação para a humanidade. Pelo que vejo, isso está longe de acontecer. A seguir explicarei o porquê e creio que o leitor irá concordar comigo. Caso discorde, deixe sua opinião. Adoraria saber.

O que uma pessoa de bem, correta e de boa índole, faria se achasse um livro perdido dentro de uma faculdade? Pensando ser uma dessas pessoas, certamente, eu entregaria para algum funcionário, na esperança de que o dono procuraria seu pertence desaparecido. Contudo, creio que poucas são as pessoas que pensam dessa forma. Ontem, minha namorada e eu perdemos um livro. Enquanto procurávamos por um papel na bolsa dela, esquecemos a obra sobre as catracas da UniNove. Sem brincadeira, o livro ficou à deriva por 5 minutos, o tempo de percebermos que o havíamos esquecido e de voltar à catraca para tentar localizá-lo. Esse foi o tempo de alguma alma, digamos, ordinária, tê-lo encontrado e pensado que era um presente de boas vindas da faculdade a ele.

Quando comprei este livro para ela, algo que ela havia demonstrado desejo de ter, e o dei de presente de natal, não tive a oportunidade de escrever uma dedicatória. O livro veio embalado direto da entregadora (comprei via Internet, R$ 20, bem barato) e não pude abrir a embalagem. Depois da alegria de ganhar o livro, com o brilho nos olhos dignos de uma criança que ganha um brinquedo, meu amor pediu que lhe escrevesse uma dedicatória. Após algumas horas de completa falta de inspiração, desenvolvi uma página dedicando o livro, e meu coração, a ela. Tal ato fez com que o livro tivesse o valor dobrado, em termos sentimentais.

Novamente, se você encontra um livro perdido, sobre a catraca da entrada de uma universidade e leva o dito cujo embora, sem se importar se o dono irá se apresentar e reclamar seus direitos sobre o tal. Se você abre o livro e dá de cara com uma dedicatória como a que fiz, descobre que foi um presente de Natal, possui valor sentimental. Isso não te dá dor na consciência? Remorso? Pelo visto não deu…

Quando estavamos voltando para casa, revoltados, frustrados, revoltados, decepcionados, para não dizer revoltados com o ocorrido, apontamos algumas possibilidades para a falta de dignidade de quem encontrou o presente perdido. A principal delas foi o fato do livro ser uma novidade – O Segredo era o título, uma obra em destaque na mídia. Será que isso é o bastante? Pensamos um pouco mais e concordamos que se o objeto perdido fosse O Crime do Padre Amaro ou algum do Machado de Assis, por exemplo, era bem capaz de ter sido entregue para o segurança ou para o porteiro. Quem se importa com esses livros velhos? Ou com dedicatórias, indicando que o livro tem dono?

De qualquer forma, darei outro livro a ela no fim de semana. A dedicatória, porém, não será a mesma. É impossível repetir as mesmas palavras, com a mesma significação e sentimentos que tinha naquela hora em que tinha a caneta na mão no dia 25. O que fica do que foi escrito é aquilo que ela já se acostumou a ouvir e que pretendo dizer a ela todos os dias da minha vida, sem cansar. Ela já sabe, não é mesmo? Para quem está com este pedaço de carinho que compartilhamos, desejo tudo de bom e que todos seus desejos se realizem. Ou não.

Até o próximo texto!

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