Pensamentos Cotidianos, por André L C Ferreira


Entrevista com Sandra Werneck

Posted in cinema,cotidianos,entrevista,filmes,pensamentos,texto por andre1979 em outubro 27, 2010
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Saudações,

O texto abaixo é o resultado de uma entrevista que fiz por telefone com a cineasta Sandra Werneck na ocasião do lançamento do filme Sonhos Roubados, disponível hoje em DVD pela Europa Filmes.

O texto, que pode ter sido editado e revisado em sua versão impressa, foi publicado na revista Ver Video, edição 201 (abril de 2010).

Uma boa dose de realidade

A vida de três meninas em uma favela carioca ganha cores dramáticas e verdadeiras em Sonhos Roubados, filme dirigido por Sandra Werneck que chega aos cinemas em abril

Diversos retratos do modo de vida da classe mais pobre da sociedade brasileira já foram pintados. Sob diferentes óticas, grande parte das produções que trazem o cotidiano de quem reside em uma favela termina por focar o crime e a violência social, em especial aquela protagonizada por homens, jovens ou não. E este tipo de abordagem termina por dar certo glamour a este estilo de vida destemido, que tira da frente as dificuldades à bala e deixa ainda mais fina a linha que separa o criminoso de um herói, um mártir. Mas como é a realidade das mulheres mais jovens em um mundo bruto como este? Meninas que amadurecem rapidamente sob a pressão de começar muito cedo uma família, sem apoio familiar, educação e esperança. Foi com a meta de expor a dificuldade que as garotas que nascem e vivem nas favelas cariocas que a cineasta Sandra Werneck rodou Sonhos Roubados, ganhador do prêmio de Melhor Longa-Metragem de Ficção de Voto Popular no Festival do Rio de 2009.

Chegando aos cinemas nacionais em 23 de abril, esta produção narra as histórias de três jovens, Jéssica (Nanda Costa, ganhadora do prêmio de melhor atriz no Festival do Rio em 2009 por seu papel), Daiane (Amanda Diniz) e Sabrina (Kika Farias), melhores amigas que vivem em uma comunidade pobre em um morro fluminense, encaram a dura realidade de viverem na miséria e usarem a prostituição como sustento. Para falar mais sobre como nasceu Sonhos Roubados e outros assuntos interessantes, Ver Video conversou com Sandra Werneck, que, além de dirigir, roteirizou e produziu o filme.

Ver Video – As atuações das três protagonistas são muito intensas. Sandra, como você escolheu o elenco principal de Sonhos Roubados?

Sandra Werneck – Foram muitos testes, muitos mesmo. Não escolhi ninguém por indicação. Demorou bastante. Aconteceu uma coisa até engraçada, para você ver. A Kika (Farias) havia sido escolhida para viver a Jéssica, papel que foi interpretado pela Nanda Costa. Depois, pensei melhor e achei que ela seria ideal para a Sabrina. Já a Nanda veio para fazer o teste comigo e pedi a ela uma improvisação, que ela fez e passou.

VV – Em Sonhos Roubados, há também a presença de diversos nomes de destaque do cinema e da televisão brasileira, como a Marieta Severo, o Ângelo Antonio, o Daniel Dantas e o Nelson Xavier, por exemplo. Como eles entraram no filme?

Sandra – Algumas das pessoas que fazem parte do filme eu já tinha em mente quando comecei o projeto. Com o Ângelo (Antonio), por exemplo, eu já queria trabalhar fazia tempo. Ele é ótimo e eu gosto muito do trabalho dele. Eu achei que ele faria um bom pai para a Daiane (Amanda Diniz), pois ele é jovem. A Marieta (Severo) e eu conversamos bastante antes dela entrar em Sonhos Roubados. Ela interpreta a Dolores, uma cabeleireira que fica amiga da Daiane e ganha destaque. Marieta tinha muito medo de fazer a Dolores parecida com a Dona Nenê de A Grande Família, já que ambas as personagens são cabeleireiras e ela não queria que isso acontecesse. Então, mexemos bastante no roteiro e adaptamos tudo para que a personagem dela não ficasse em nada parecida com a que ela faz na TV.

VV – E o resultado disso ficou nítido no filme.

Sandra – É verdade. Não há nada de parecido entre as duas personagens. A Marieta criou duas personalidades totalmente diferentes, ficou muito bacana mesmo.

VV – Como você completou o time de atores?

Sandra – O Nelson (Xavier) é outro ator com quem eu há tempos queria trabalhar. Ele trouxe para o papel, Seu Horácio, avô de Jéssica, o que eu buscava, um toque verdadeiro. O Daniel (Dantas) foi um caso à parte, já que ele interpreta um personagem complicado, o Tio Pery. Eu tinha que colocar um pedófilo na história, fazia parte do roteiro, e o Daniel tem um jeito meio tranquilo, um olhar mais inocente e dócil. Eu não queria um homem com cara de mau para isso, tem que ser alguém com cara de bonzinho, que não deixe essa maldade transparecer.

VV – O seu roteiro é baseado no livro As Meninas da Esquina (Editora Record), de Eliane Trindade. Como surgiu a ideia de adaptar o texto para o cinema?

Sandra – O filme não é uma transcrição do livro. Na verdade, o material da Eliane Trindade serviu como inspiração, como base, para o roteiro que eu escrevi. Peguei as meninas que ela retrata no livro dela, olhei o que tinha de melhor e que poderia ser filmado, mas que não deixasse o filme pesado demais – o livro é muito forte e tem coisas que não poderiam ser passadas para as telas. Tem coisas que no texto são permitidas, mas que em filme não podemos traduzir.

VV – E quando surgiu a ideia de fazer este filme?

Sandra – O pensamento veio quando eu estava terminando de filmar um documentário chamado Meninas, em 2006, cujo tema é a gravidez precoce. É um documentário que foi exibido até em Berlim, estava no programa Panorama. E eu estava envolvida na produção e quis conhecer melhor esse mundo, então me aprofundei mesmo, coloquei uma lente de aumento nesse assunto. Mesmo porque os filmes atuais só falam dos meninos que vivem nesse universo, quase ninguém mais fala das meninas das favelas.

VV – Em sua carreira, você trabalhou histórias muito diferentes, em gêneros diferentes, como Cazuza – O Tempo Não Para (2004), Amores Possíveis (2001) e Pequeno Dicionário Amoroso (1997). Podemos dizer que essa diversidade é sua marca?

Sandra – Sim. Eu adoro esta variedade. Eu não gosto de me repetir, entende? Apesar de eu sentir que em Sonhos Roubados eu esteja me repetindo, já que resgato um tema em que já trabalhei em documentário.

VV – Sonhos Roubados tem mesmo um ar documental, com uma comunidade real como cenário. Onde o filme foi rodado?

Sandra – Filmei em Ramos e em Curicica, no Rio de Janeiro.

VV – Foi difícil conseguir filmar nessas comunidades?

Sandra – Não, pelo contrário! O pessoal me recebeu super bem, foi maravilhoso. Posso dizer que a melhor parte do processo de desenvolvimento desse filme foi a filmagem nesses locais.

VV – Essa boa recepção pode ser considerada um toque especial no filme? Um diferencial?

Sandra – Sim, as pessoas contribuíram muito para o filme. Todos os figurantes são das comunidades onde filmamos. Todo o cenário é verdadeiro, não construímos nada. Os bares, os lugares onde acontecem as festas, enfim, tudo de verdade. Acredito que a soma disso deu a veracidade que era necessária ao filme.

VV – Como você captou recursos para realizar Sonhos Roubados?

Sandra – Eu ganhei um edital do BNDES e um da Petrobrás. Também tive grandes aliados, verdadeiros parceiros, que foram a Bayer Shering Pharma, a Oi e a Childhood, uma ONG ligada à proteção da juventude, relacionada ao combate á exploração sexual, à violência contra a mulher, a esses tipos de crimes. Quem é a maior representante dessa organização é a Rainha da Suécia, a Sílvia.

VV – O fato de ter uma ONG patrocinando o filme pode hastear uma bandeira em prol dessa causa?

Sandra – Não, não uma bandeira. Na ONG me ajudaram a olhar melhor para essa questão também, sabe? Não devemos olhar para essas meninas com pena, não quero dizer isso. Eu mostro a vida delas. É claro que a dureza machuca os olhos. Elas vivem o presente e só, não pensam no futuro. A meta aqui é entender o resultado da falta de possibilidades que elas vivem. Elas lidam com o momento, com as necessidades imediatas, então fazem o que precisam para sobreviver. Mas qual o futuro delas? Um outro aspecto muito interessante é a união entre as três protagonistas, já que elas estão sempre um ao lado da outra nas situações. Elas não têm uma estrutura familiar para garantir a segurança delas e acabam tendo apenas as amigas como apoio. Podemos dizer que Sonhos Roubados também é um filme sobre a amizade.

VV – A amizade entre as meninas acaba sendo o fio que conduz a história, então?

Sandra – Isso mesmo. O filme começa com as três juntas e termina com elas reunidas. A amizade entre elas é o que une as histórias.

VV – Como a Europa Filmes entrou na produção para fazer a distribuição do filme?

Sandra – Conversei com o Wilson Feitosa, diretor geral da Europa Filmes, quando o filme já estava pronto e estivemos juntos pouco antes do Festival do Rio. Ele assistiu ao filme, gostou e resolveu distribuir.

VV – Há algum material especial preparado para quando Sonhos Roubados chegar em DVD?

Sandra – Tem o making of, trailer e uma série de takes que separamos durante a produção do filme e que devem entrar no DVD. Meus filmes sempre têm o making of e uma série de materiais extras. E quem fez o making of de Sonhos Roubados foi minha filha, então, esse não vai faltar.

 

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