Pensamentos Cotidianos, por André L C Ferreira


Conto: Caçador – Capítulo 1

A cidade passa rapidamente pela janela enquanto olho vagamente para o horizonte. Ora veloz, por vezes vagarosamente, os bairros mais distantes do Centro vão se aproximando e centenas de pessoas entram e saem dos vagões. O ritmo acelerado da vida urbana já me contagiou depois de tantos anos vivendo na metrópole. Tantos anos é apenas uma referência, pois séculos já se passaram e eu continuo a ver a as pessoas indo e vindo em suas findáveis existências. Posso me dar ou luxo de dizer que elegi o Brasil como morada e não me arrependo disso. Já vivi em muitos lugares e já vi muitas paisagens que já não existem mais nos dias atuais. Vi reis e imperadores nascerem e caírem como páginas viradas em um livro de História. Guerras, pestes e desastres; invenções inovadoras, descobertas revolucionárias e artistas fantásticos; tudo isso faz parte do livro da minha história: vivenciei o que a maioria descobre na escola ou na Internet. Sou imortal.

É claro que estou glorificando demais. Não presenciei nada disso pessoalmente. Senti as mudanças que ocorreram de onde estava. Passei boa parte da minha existência fugindo, escondido, tentando entender os motivos que levaram a humanidade a excluir seus antigos ídolos e se tornarem tão fanáticos por uma única figura. Mas tudo bem. Eles fazem a escolha deles e eu a minha. Houve uma época em que fui venerado por muitos na região em que nasci. Era um ícone e um predador feroz. Hoje, vivo à margem da sociedade. Busco meu alimento entre os mortais, absorvo suas vidas para manter a minha. Minha imortalidade não é gratuita e precisa ser renovada com freqüência. Sou amaldiçoado.

Observo atentamente o movimento das pessoas na cidade. Escolho muito bem minha futura refeição. Se outrora fui antropófago, carnívoro fervoroso, refinei meu paladar e me tornei um hemófago convícto. Meu sistema absorve muito melhor este néctar e minha qualidade de vida melhorou muito depois de adquirir este hábito. Paguei muito caro por matar para alimentar-me. Reza minha maldição que todo aquele que der sua vida para que minha existência se mantenha deverá ser morto duas vezes – se eu não o extinguir, acabará se tornando outro como eu, algo que não posso permitir. Nos dias atuais, absorvo apenas o necessário e, muitas vezes, o ‘doador’ nem sabe que saciou minha fome. Durante minha estada no plano dos deuses, convivi com diversos imortais e aprendi muito com eles. Sou um semi-deus.

Já me acostumei com a rotina da vida dos trabalhadores da grande cidade. Devo dizer que não há melhor lugar para escolher o prato do dia. Vários tipos de pessoas, boas e ruins, saudáveis e doentes, homens e mulheres; todos, todavia, têm seu sabor e sua valia para minha dieta. Apesar de ser um macho da espécie, não faço distinção de gêneros quando o assunto é meu paladar. É claro que sempre dou preferência para as fêmeas humanas, pois, são agradáveis aos olhos e costumam ser mais saudáveis que os opostos. Entretanto, evito qualquer tipo de relação diferente da alimentar com qualquer humano. Aprendi que não posso me apegar a nada nem a ninguém. Faz parte da minha cultura e é uma das coisas que me mantém vivo até os dias de hoje.

Dentro do vagão, já tarde da noite, um dos últimos trens está de partida do terminal. Olho seletivamente ao redor em busca da próxima refeição. Sinto mil cheiros, vejo cores e imagens que os olhos mortais não enxergam. Ainda não resolvi qual será escolhido. A campainha toca dentro do vagão, sinal de que as portas se fecharão. Correndo, uma moça consegue se esquivar da porta em fechamento e respira fundo. É uma menina bonita, de cabelos escuros e olhos castanhos, amendoados. Aparenta ser uma estudante jovem e cheia de vida. Acho que encontrei o que procurava. Por mais engraçado que pareça, ela me viu e sorriu. Normalmente, passo despercebido pelas pessoas. Evito ser visto. Devo ter baixado minha guarda e dei a ela esta oportunidade. A jovem caminha para o mesmo lado que estou e toma assento a poucos metros de mim. A composição está quase vazia. Os ecos das conversas soam pelo ar, os sons dos trilhos começam a crescer e a monotonia retorna.

Tentando ficar mais confortável em seu assento, a menina recosta sua cabeça e estica seus músculos das costas e do pescoço. Seus olhos se fecham por um momento e seus cabelos balançam sobre seu rosto. Com as mãos, ela retira os fios caídos sobre a face e os amarra junto do resto, na parte de trás da cabeça. Acomodada, coloca seus fones de ouvido e deixa a música entrar em seus pensamentos, distanciando-se do ruidoso ambiente. Lentamente, suas pápebras descem e sua íris escura dá lugar ao vazio, relaxada. Sua respiração se torna mais lenta e pesada, seus músculos faciais já não estão mais tensos. Sua imaginação toma o lugar da mente atenta, o mundo dos sonhos abre a ela suas portas. De onde estou, observo cada movimento dela. Isto me encanta. Sinto-me um predador à espreita de sua próxima caça. O mais estranho é que parece que tem algo mais sobre esta jovem que me intriga, alguma sensação estranha e diferente que me atrai. Decido explorar o que se passa em sua mente – algo que não faço comumente com futuros jantares.

Minha descendência me concede determinados dons que humanos não possuem. Sou discípulo de Hipnos, transito pelo sono dos mortais e o reino de Nix é minha morada. Com um pouco de concentração, vou enxergando o que se passa dentro da mente dos que estão ao meu redor. Foco minha atenção na garota e logo inicio o contato. Minha mente começa a se expandir através da mente dela. As primeiras imagens que recebo dela são do cotidiano. Pela expressão em seu rosto, sei que ela recebeu meu contato e está totalmente relaxada, sinal de que não terei dificuldades em saber o que quero. Quanto mais profundamente me conecto a ela, mais seu relaxamento aumenta. Seu corpo agora está solto e ela está dormindo profundamente. Ninguém ao redor nota o que se passa e eu faço questão de manter a situação sob controle. Mais imagens da mente da jovem chegam ao meus olhos e vejo sua infância, um cachorro, a morte, a ausência de seus pais e as dificuldades de ser criada por uma avó, mais perdas e mais sofrimento. Agora sei que ela é solitária, como eu. Simpatizo com ela. Esta simpatia serve para aumentar ainda mais minha fome. A jovem se chama Cláudia e ela está indo para sua casa depois de ter trabalhado e ido à faculdade. Ela quer ser psicóloga e está no último ano. Seu trabalho paga pouco e ela mora longe. Apesar disso, é feliz. Engraçado como isso fica claro ao ver a forma como ela reage a cada memória. Para ela, não passa de um sonho. Para mim, sua mente é uma revista que folheio enquanto transito e me preparo para a próxima refeição.

Percebo que seu sono está ficando mais leve, sua parada está próxima. Não perco mais tempo navegando por suas lembraças e insiro o que preciso. Indico a ela o local que deve me encontrar, a hora e como se portar. Estas mensagens ficam instaladas no subconsciente dela e são ativadas no momento em que ela adormecer novamente. Assim, não corro riscos de ser percebido, para ela, não passarei de um pesadelo em uma noite qualquer. Trago ela de volta lentamente e me divirto ao ver o movimento de seus olhos sob as pápebras. Elas começam a subir e ela desperta suavemente de um sono tranqüilo. O trem pára e ela se recompoe para levantar-se. Faço os mesmos movimentos e ambos nos dirigimos para a porta. A próxima parada será a descida. Nos olhamos e ela sorri novamente. Vejo inocência, apesar de tanto sofrimento que já viveu, em seus olhos, agora atentos. Não consigo evitar a empatia entre nós. Sinto que há algo de errado no ar.

Descemos e caminhamos em direção à escadaria. A passos lentos sigo os mais velozes dela. Já é tarde e ela precisa ir logo para casa. Subitamente, ela cessa seus movimentos. Sons de gritos ecoam pela estação. Tiros. Cláudia se assusta. Subo correndo os degraus remanescentes e fico paralelo a ela. Um assalto à bilheteria da estação está em curso. Os seguranças correm e uma bala atinge meu peito. Sinto o calor do projétil em meu corpo imortal. Apesar de não ameaçar minha vida, a dor é enorme e faz minhas pernas dobrarem. A jovem olha para mim e reage tentando me amparar. Com seu ato, ela também é alvejada por outra bala. Ao contrário de mim, Cláudia não é eterna e o ferimento é mortal para ela. Seu corpo cai ao meu lado. Vejo seus olhos piscando, lacrimenjantes. Sua respiração fica mais difícil e vejo que ela delira. O cheiro de seu sangue atiça meus instintos e faço um enorme esforço para não devorá-la ali mesmo. A movimentação dentro da estação aumenta quando a polícia chega e os assaltantes passam correndo por nós, indo em direção aos trilhos. Os seguranças também passam por nós, sem dar importância aos feridos. Sua meta é pegar de volta o que foi roubado. Respiro fundo e fecho meus olhos. Sinto o projétil sair do meu corpo pelo mesmo orifício que fez ao entrar nele. Pego o pedaço de metal em minhas mãos e olho para o sofrimento da menina. Seus olhos estão quase fechados, ela convulsiona e sente frio. Não resisto mais. Aproximo minha boca do local do ferimento e sacio minha fome. Ela sente dor e murmura algo. Não entendo o que ela fala. Sua mão segura meu braço com firmeza e posiciono meu ouvido perto de seus lábios. Seus olhos se abrem e ela sussura: – Me ajude. Seu corpo desfalece e sua mão larga meu braço. Sua vida está se esvaindo enquanto me alimento dela. Olho para seu ferimento e vejo que várias artérias estão comprometidas. Há duas formas para ajudá-la. Posso torná-la uma da minha espécie, subordinada a mim pela eternidade ou tentar a cura com meu próprio sangue. Das duas formas uma maldição cairá sobre nós dois. Não sei o motivo, mas não posso deixá-la morrer. Com minhas presas à vista, faço um rasgo na palma de minha mão, única forma de me ferir, e deixo que meu sangue escorra por toda a mão. Coloco a palma para baixo e toco o ferimento de Cláudia. Em poucos segundos, uma dor aguda toma conta de nós dois e nos ligamos fortemente um ao outro naquele momento. Suas artérias se regeneram, o ferimento se cicatriza e apenas uma marca fica no lugar em que a bala a atingiu. Ao mesmo tempo, meu peito queima e a mesma cicatriz que ela tem aparece em meu corpo. Ela está curada e eu faço parte de sua vida agora. Deixo que seu corpo deite no piso, imóvel. Sua feição é de paz e a dor foi toda tranferida para mim. Cambaleando, levanto-me e caminho de volta para a plataforma do trem. Deixo Cláudia inconsciente, mas sei que a polícia a encontrou. Ela está salva.

Na plataforma, observo o caminho que os bandidos seguiram, com os seguranças em seu rastro. Contudo, sinto o odor dos criminosos também no sentido oposto ao que os outros seguiram. Algum ficou para trás. Enquanto caminho, meus ferimentos se curam e já não tenho mais dores. Respiro fundo e concentro meus sentidos. Minhas pupilas crescem e vejo as sombras com a mesma naturalidade que vejo a luz. Com agilidade, sigo para o túnel negro. Estou no meu habitat agora. É a vez do caçador tomar o lugar do complascente. Escuridão e silêncio pairam na atmosfera. O cheiro de umidade e freios queimados que o trem deixa não me confundem e sei onde está o fugitivo. Ouço seus tremores e logo o localizo em uma vala. Ele ainda não percebeu que estou perto, mas sua respiração não nega seu medo. Em termos gastronômicos, o medo é a pimenta que realça o sabor da comida. Raiva. Minha ira sobre o rapaz é quase cega. Ele atentou contra minha existência e contra da de uma inocente moça. Engraçado que a menina é importante para mim. Minha fúria aumenta e me aproximo lentamente do ladrão. Quando ele percebe minha presença, dispara diversas vezes ao léu, sem me atingir uma bala sequer. Desta vez, estava preparado e não me deixei acertar. Ele grita e corre. Corro junto e salto sobre suas costas. Incontrolável, mordo seu ombro com violência e sinto seus músculos se partirem, seu braço direto está inutilizado. Deixo que ele se levante e se arraste tentando fugir novamente. Sinto o cheiro do medo ainda maior junto ao sangue que tirei.

O gosto de sua carne é amargo, é um viciado. Canso de caminhar e pelas sombras o seguro. Imóvel, o rapaz chora e as lágimas escorrem por sua face. Ele não consegue me ver, mas sente minha mão em seu pescoço, apertando e quase impedindo que ele respire. Sem a mesma sutileza que penetrei na mente de Cláudia, entro na do bandido. Ele grita de dor e quase desmaia. Ergo seu corpo quase morto pelo pescoço e vejo que ele tem filhos, que abandonou por causa do vício. Vejo que ele rouba e mata para ter o que precisa para saciar sua necessidade química. Vejo os rostos dos que foram feridos por ele e assisto à cena que acabei de vivenciar, em que fomos alvejados por ele. Ele pensou que fôssemos seguranças e atirou sem pensar. Não me importa mais, não me alimentarei dele. Minha fome já estava saciada com o sangue que ele tirou de Cláudia. Com um rápido movimento, abocanho seu pescoço e o dilacero. Deixo que seu corpo caia em seus últimos suspiros de vida. Cuspo o pedaço que arranquei daquele ser inútil e caminho de volta para a luz. Sei que estou sujo e cansado. Ouço os policiais e os seguranças entrando no túnel. Pelas sombras, fico escondido e eles não percebem que passo por eles. Saio da plataforma e sigo em direção ao banheiro da estação.

Dentro do banheiro, olho para minha imagem no espelho: uma criatura movida a fúria, suja de sangue e com novas cicatrizes pelo corpo. Sou imortal e, apesar de ter vivido muito, ainda não aprendi a controlar este animal que sou. Abro a torneira e deixo a água escorrer por minhas mãos. O vermelho desce pelo ralo e minhas mãos ficam quase limpas. Retiro do bolso um lenço e molho o pano. Depois de limpar meu rosto, me livro das roupas imundas e fico nu. Pelas sombras me misturo e saio do banheiro. Escondido, observo os paramédicos colocarem Cláudia na maca. Ela ainda não despertou. E nem irá tão cedo. O choque da conexão entre nós foi muito forte e ela deve estar em coma, provavelmente. Logo ela sairá dele. Sairá uma pessoa diferente. Mais saudável do que jamais foi e mais inteligente, com o raciocínio treinado de um ser com mais de dois milênios de vida. Este é meu presente a ela. Esta é minha maldição a ela.

Depois que a ambulância sai, sigo no encalço dela apenas para ter certeza de que está tudo de acordo. No hospital, Cláudia é recebida na emergência e examinada. Suas pálpebras são abertas pelo atendente e revelam pupilas normais, porém, vazias. Sua mente está comigo agora. Seu corpo precisa se recuperar primeiro. O coma é diagnosticado e o corpo é levado à UTI para observação. Olho para o corpo da jovem e não consigo evitar o desejo de estar perto dela. Lembro-me de seu olhar quando fui ferido. Um olhar solícito e preocupado. Ela se importou comigo. Também escuto sua voz pedindo ajuda. Nossa conexão foi imediata. Fecho meus olhos e me conecto com sua mente. Ela está longe daqui, segura. Para ela, o sonho que tinha dentro do trem continua e está calma. Faço questão de velar seu sono para que seu corpo se recupere logo. Passo minhas mãos sujas por seus cabelos, sua testa e suas bochechas. Sua pele está morna. Seus lábios, também. Pressiono minha mão sobre seu peito, sinto seu seio sob minha palma. Tento não pensar nisso. Fecho meus olhos e termino de curar seu ferimento. Seu corpo começa a tremer e sinto sua mente voltar ao ponto de origem. Ela respira fundo e seus olhos se abrem, assustados. Não tenho tempo de desaparecer e ela me vê. Cláudia estende seu braço em minha direção e me aproximo dela.

Com sua mão estendida, Cláudia tenta tocar-me. Aproximo-me o bastante para que seus dedos toquem minha face. Seus olhos conectam-se aos meus e algo acontece comigo. Pisco e interrompo o momento. Dou um passo para trás e vejo uma lágrima descer de seu rosto. Noto que uma também desce pelo meu, algo que não me lembro quando aconteceu pela última vez. Ela coloca-se sentada na cama e solta dos fios que a ligam aos aparelhos. Fico imóvel, pasmo. A jovem sai do leito e caminha até mim. Com suas mãos, acaricia meu rosto e meus cabelos. Sinto suas palmas acariciarem minha barba e tocarem meus lábios. Automaticamente, minhas mãos seguram as dela pelos pulsos. Cláudia está me analisando, tentando entender o que se passou. Quando sinto que não faz mais força com seus braços, solto seus pulsos. Ela senta-se na beira da cama e me olha.

– Por que estou aqui? – pergunta.

– Não sabe?

– Eu morri. Sei que morri. Lembro de você, de estar nos seus braços, como no colo de um anjo e estava feliz. Não morri?

– Sim, morreu. Mas te trouxe de volta.

– Por quê? – diz Cláudia fitando meus olhos.

Sem conseguir desviar, fico mudo. Observo que ela desvia o olhar e se aproxima da janela. As outras camas estão vazias. Estamos sós no ambiente.

– Não entendi o que houve. Achei que você fosse um anjo. – disse ela, apoiando-se no batente da janela.

– Não sou um anjo. Estou longe disso. Não me encaixo nesta mitologia que você conhece.

– Mitologia? – pergunta ela, virando-se para mim, esboçando um sorriso – Não acredito em nada. Não sei o que pensar agora.

– Então não pense. Apenas aceite que te dei uma nova oportunidade. Fiz isso porque vi algo diferente em você. – disse eu a ela, aproximando-me.

A jovem volta para a cama e se cobre, encolhendo-se. Perto da janela, olho para ela, admiro sua beleza pálida. Quase me esqueço que consumi seu sangue há poucas horas. Observo seu rosto, seus olhos, agora fechados. Chego perto do leito e acaricio seu cabelo. Ela responde pegando minha mão e apertando-a com força. Ajoelho-me diante dela e nossos rostos estão emparelhados. Deixo que ela me veja de perto. Veja como sou pálido, como sou frio. Com meus cabelos escuros e curtos, minha barba rala e meus olhos negros. Mais negros do que qualquer humano possa ter visto. Ela abre os olhos e vê meu semblante cansado. Preciso partir. Olho em seus olhos e conecto nossas mentes novamente. Ela sente um calafrio quando faço isso e aperta minhas mãos.

Uma vez conectados, peço que ela adormeça. Ela luta contra isso. Resiste. Seus olhos lutam para permanecerem abertos. Porém, quando passo meus dedos por seus cabelos, suas forças se evaporam e ela desfalece, caindo em um sono profundo. Desisto de tentar mudar o que aconteceu. Poderia muito bem inserir o que quisesse para que ela acreditasse que fosse a verdade. Todavia, decido deixar como estão as coisas e me desconecto de sua mente. Outro calafrio corre pelo corpo dela e ela relaxa. Deixo-a descansar e desapareço nas sombras.

Continua…

André Luis Cavallini Ferreira, março de 2008 (editado em junho, 2008)

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Conto: O Filho do Mar

Posted in conto,cotidianos,mitologia,o filho do mar,pensamentos,texto por andre1979 em junho 4, 2008
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Quase dez anos se passaram desde a última vez que Patrício esteve na cidade em que nasceu e viveu durante quase trinta anos. O tempo parece que parou. Pela estrada, o ônibus o leva para o lugar em que suas melhores e piores memórias estão guardadas. Infelizmente, as mais tristes prevalescem. O vento sopra em seus, já poucos, cabelos e o cheiro do mar traz de volta tudo o que estava lacrado e fadado ao esquecimento. O tempo parece que parou mesmo. A paisagem serrana, a pressão nos ouvidos, a umidade e o calor são os mesmos. Aos poucos, o corpo se acostuma e a náusea já não é mais causada pela viagem, mas pelo motivo dela. Há algumas horas, Patrício recebeu um telegrama cujo conteúdo era muito desagradável. Um amigo de infância, Samuel, com quem dividiu seu primeiro pesqueiro, Netuno, e foi seu padrinho de casamento, havia morrido – o mar o havia levado. Com isso, os ecos das vozes daqueles também levados pelo grande azul chamam seu nome novamente. Depois de fazer sua mala e ligar para o mercado avisando que se ausentaria, um grande esforço foi feito para que suas pernas o levassem à rodoviária.

Ao chegar ao vilarejo, a decadência parecia tomar conta do ambiente. Nas ruas de terra e pedra, o armazém da esquina continua servindo a pinga aos pescadores recém-chegados de mais uma busca frustrada, aquecendo seus corpos e aliviando outro dia desperdiçado. Patrício coloca sua única bagagem no chão e observa o vazio das alamedas. O espaço, que antes era tomado por peixeiros e pescadores negociando mercadorias, e crianças correndo atrás dos cachorros, jogando bola e gritando, agora é o habitat solitário de alguns bêbados e de procissões marchando à igreja da praça.

Depois de recolher sua mala, o viajante caminha em direção ao armazém. Enquanto se aproxima, observa sua volta e tenta compreender o que houve com sua antiga casa, sua terra. A trajetória é interrompida quando um senhor que estava encostado na parede do comércio desperta e fita o homem que se aproxima. Os dois se olham e logo Patrício reconhece o idoso. O ancião demora um pouco mais, mas também o reconhece.

– O desertor retornou, por fim. E quem o trouxe de volta foi a morte! – disse o maltrapilho, enquanto se erguia de seu sono ébrio e ajeitava suas calças empoeiradas.

As palavras mexem com Patrício. Um misto de sentimentos passa por seu corpo e o arrependimento por retornar já começa a abatê-lo. Contido, balança sua cabeça e respira fundo. A voz do idoso, ácida, o faz relembrar sua partida. Um turbilhão de memórias o atinge e suas pernas ficam trêmulas. Seu rosto empalidece e o ancião percebe isso. Entretanto, o esforço de não ceder à tristeza faz com que o homem se recomponha e olhe nos olhos do idoso, que recua e percebe sua mudança de fisionomia.

– Não, velho, foi a Morte quem me fez ir embora quando o mar levou minha família e me deixou sozinho neste mundo – respondeu Patrício.

Enquanto o senhor o observava, prossegiu sua jornada ao armazém. Lá dentro, foi recebido com alegria por Carlito, o dono do comércio. Os dois tinham o hábito de realizar grandes negócios com o peixe que Samuel e Patrício traziam. O comerciante já não estava mais tão próspero quanto havia sido naquela época. Carlito explicou a Patrício que, desde sua partida, a prosperidade deixou a vila e a pobreza fez com que muitos partissem em busca de trabalho em outro lugar.  O peixe ficou escasso e os pescadores foram obrigados a procurar o sustento mar afora. O resultado foi o sumiço crescente dos trabalhadores e da renda dos moradores.

Profundamente abalado, o recém-chegado se despede e volta para a rua, caminhando pelas alamedas estreitas e vazias. O idoso já não estava mais na porta. Patrício resolveu ir ao cemitério e seguiu direto para lá, sem mais paradas. Ao mesmo tempo que suas pernas o levavam ao velório de Samuel, sua mente havia se desligado e seu corpo movia-se por instinto. Sua alma estava divagando. O mar não lhe saía da cabeça. Desde sua partida que não chegava perto de uma praia. Resolveu mudar seu rumo e seguiu em direção ao farol, ao norte da orla. Para qualquer outro homem, o cenário seria maravilhoso, digno de um cartão-postal. Contudo, as memórias da felicidade destruída o fazem sem cor, sem vida ou propósito para Patrício.

Ao caminhar pela areia, os pensamentos se distanciam no tempo e no espaço, trazendo de volta recordações. Quase no final do caminho de areia, Patrício viu algumas pedras, uma parede natural, e para lá se dirigiu. Depois de sentar-se sobre a formação mais alta, o ex-pescador observa o mar calmo, como um lençol azulado que cobre a terra. Seus olhos lacrimejam enquanto lembra de sua mulher e seu filho. Ambos foram tirados dele durante uma pescaria na enseada. Uma tempestade havia se formado subitamente, algo sobrenatural, e o barco virou entre as ondas, que tragaram sua família e nem um velório pôde ser realizado. Alguns dias depois da tragédia, Patrício acordou em uma praia, são e salvo, como por milagre. Como ele desejava não ter sobrevivido. Depois de venerar aquele que lhe dava o sustento, de dedicar sua vida a ele, uma enorme repulsa o consumia. A perdas o fizeram revoltar-se contra o mar, sua casa e seu sustento. Para ele, que justiça havia em ter aquilo que ele mais amava ser arrancado daquela forma? Patrício decidiu que o mar havia morrido também e que nunca mais pisaria no túmulo de sua família. Ele amaldiçoou aquele que o criou e jurou que o odiaria pelo resto de seus dias.

Agora, mais uma pessoa querida era levada para os domínios de Netuno. A revolta voltava a pulsar em suas veias e a fúria havia retornado. O velório simbólico que os familiares estavam realizando não era mais importante. O sangue quente somente sossegaria quando tudo aquilo saísse de seu coração: ódio, raiva e ira – o mundo era cinza novamente. Ironicamente, o céu estava se abrindo. Os raios de sol cortavam as núvens e tocavam a pele de Patrício. As lágrimas em seu rosto representavam a libertação de um peso que estava amarrado em sua alma durante quase dez anos e que o fazia sofrer a cada respiração. Ainda sobre a pedra mais alta, a revolta explodiu dentro de seu peito e um urro de fúria ecoou pelo ar, espantando os pássaros e estremecendo o calmo braço do oceano. O céu começou a fechar e, assim como havia ocorrido no passado trágico, uma tempestade se formou no ar, com raios cortando as nuvens e o vento levantando as ondas, agora altas e nervosas. O mar parecia responder com a mesma raiva que seu filho.

Patrício sente suas lágrimas se misturarem com a chuva. As gotas freqüentes sobre a enegrecida superfície da água formam um espelho distoricido refletindo as memórias dos que, com o sangue de sua família, jazem no mar agora. Os gritos de ódio do homem parecem desafiar o deus dos mares e ele responde com lampejos e estrondos pela atmosfera úmida. Do alto da parede rochosa, Patrício, tomado pela dor e dominado pela fúria, pula ao mar. Depois do encontro de seu corpo com a água, ambos se tornaram um ser único. Uma força o suga para baixo e tudo escurece. O homem sente seu corpo mover-se rapidamente sob a água e ser tragado cada vez mais para o fundo. O ar já não importa mais para seus pulmões e ele desiste de lutar. Silêncio. A dor foi embora e o mar volta a ficar calmo. O céu se abre novamente e os raios de luz cobrem as pedras agora vazias. A água volta a ser azul e os pássaros sobrevoam o farol novamente. As cores também voltam ao cenário de cartão-postal e o vento varre o ar de melancolia e de pobreza que cobriam o vilarejo de pescadores.

Com a volta de seu filho ao lar, o mar devolve à cidadela seu bem mais precioso. A prosperidade se encontra na forma de fartura na pescaria e aquele que era um maltrapilho recolhe sua rede cheia novamente. Sem a sombra que o trouxe de volta sobre si, Patrício reencontrou sua família perdida. Agora juntos, pai e filho libertam a antiga morada de sua maldição e a felicidade que havia sido tomada é restaurada. O mar levou de volta seu filho e agradeceu.

André Luis Cavallini Ferreira, março de 2008.